quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brasil-Colônia, século 21

Eis a aurora do novo Brasil que já nasce velho.

Foto: Pedro Ladeira, FolhaPress.

Acordamos, outra vez, aturdidos pela avalanche de acontecimentos aparentemente inesperados na condução dos jogos do poder, que nos levarão a não se sabe que porto incerto - ou a que nova tempestade. Tivéssemos a maioria de nós, por um momento que fosse, a "consciência histórica" sobre o que hoje nos parece um sobressalto, uma surpreendente reviravolta em um processo que a até alguns segundos parecia firme, isso não nos surpreenderia tanto.

A verdade é que a história da ficção chamada Brasil, ainda que queiram os mais ufanos (e portanto, mais presos à cegueira) pintá-la de gloriosa, é e sempre foi a expressão da mais profunda leniência, da mais trágica mediocridade, da mais cruel ignorância, da mais infame servidão e da sublime incongruência de um povo que sempre preferiu ser espectador de sua própria história. Uma vez mais, isso está evidente, diante dos lamentáveis acontecimentos que tomam corpo no dia de hoje.

É lamentável também, sob todos os aspectos, que a maioria de nós prefira o conforto da alienação e do individualismo (in)consciente, e prefira novamente entregar sem contestação aos seus verdugos de sempre a vida, a força, o trabalho, a cultura que poderiam já ter feito de nós, há muito tempo, uma nação ímpar dentre todas as outras. A situação de hoje parece mais grave ainda porque, ao contrário dos livros de história, estamos vivenciando o processo que é o auge de outro atroz retrocesso em nossa errática trajetória.

Nossa constituição como nação é, de per se, historicamente marcada por percalços e violências, alienação e servidão. Nossa linha do tempo resume-se na submissão coletiva à ordem autocrática que sempre nos impeliu a entronizar as estruturas sórdidas dos poderes fundados em nome dos direitos "divinos" de alguns. A esses, sempre se permitiu a autonomia, a terra, o usufruto de espaços públicos e privados, a educação, a saúde, o trabalho e a vida dignos. E  aos outros, a imensa maioria, permite-se apenas contentar-se com as rações cotidianas que mal servem para manter em pé o mínimo possível para ser qualificado humano, no limite da animalidade - e me refiro aqui não apenas ao flagelo da falta de comida, mas principalmente à fome de justiça, de educação, de autonomia e independência, que sempre foram negadas à maioria de nosso povo - e das quais, ao que se parece, nosso povo, paradoxalmente, nunca sentiu falta.

Ao longo de nossa história, nos constituimos como uma sociedade de castas, com as elites econômicas e sociais, os donos dos meios de produção e comunicação, e, portanto, os donos das almas, capitaneando os benefícios dos frutos gerados pelo suor e pelos esforços de todo o resto da massa. Nosso povo segue sua trajetória, sem objetivos maiores ou mais gloriosos, que seriam ou deveriam estar simbolizados no construir de fato uma nação. É um sintoma disso a constatação de que seja justamente entre o povo que se encontrem aqueles que defendem e garantem a "ordem" do "direito divino" das elites aristocráticas, mesmo não tendo os defensores da "ordem", na maior parte das vezes, acesso senão às migalhas e sobras das delícias que são destinadas à aristocracia rural-urbano-industrial, sentadas sempre sobre o latifúndio das terras e dos meios de produção e de comunicação. À ralé, resta sobreviver a cada dia, tarefa mais do que árdua, mas sempre feita sem contestação, porque a ralé segue anestesiada com as mentiras e seduções superficiais que lhes são empurradas goelas e mentes abaixo através da crueza imbecilizante da sociedade e da religião do espetáculo, vendidas a crediário.

Caímos outra vez no "conto da pátria amada". A mesma mentira que fez os escravos e libertos sem-terra se convencerem de que iam à Guerra do Paraguai "defender a terra brasileira" - terra esta que nunca lhes pertenceu, e que jamais foi ameaçada pelos paraguaios, não ao menos como queriam fazer crer os senhores do Império, e que nem mesmo ao fim da guerra, lhes foi concedida. Desta vez, com o acréscimo da segregação e da secessão entre setores do povo e da assim chamada "classe média", vivemos no limiar da aniquilação do que poderia ser o gérmen de um pensamento crítico. Não há espaço, nem lugar, para o que seja contraditório. Vivemos tempos obscuros, absolutistas, em que a lei do mais forte - ou do que tem mais força para gritar - se sobrepõe ao diálogo. Isso tudo segundos depois de, tal qual na história platônica, uns poucos terem vislumbrado uma nesga de iluminação. Aqueles que viram luz foram conduzidos coercitivamente, para usar uma expressão que em muito sintetiza o momento, a voltar às correntes, à escravidão, à cegueira do rosto acorrentado contra a parede, pois a luz foi entendida outra vez como ilusão pela maioria cega, e mais ainda, evocá-la foi considerado subversão pelos donos das tochas que projetam sombras à caverna.

É isso. Escolhemos nosso destino, e não há como contestá-lo. Escolhemos a escravidão à autonomia, à preguiça de pensar à auto-crítica, a televisão à emancipação, o individualismo ao sentimento de nação, a segregação à união, a inveja à cooperação. 

As consequências do que ocorre hoje , somente o tempo vai comprovar. Mas temo que, num futuro não muito longínquo, a ideia de "Brasil" quiçá seja entendida como mero lampejo, arco-íris de um povo que poderia ter sido e que não foi, do país que poderia ser autônomo, indepentende, grandioso, colossal, o "florão da América iluminado ao sol", como evocam as falsas glórias de nossos hinos e cânticos de guerra, mas que por razões incompreensíveis, preferiu se apequenar, se ajoelhar, se acovardar diante de suas próprias contradições.

"Triste de quem é feliz"(1). "Pobre de um país pobre de ideias" (2).

Pobre Brasil: tão longe de Deus, tão perto do pré-sal.

Temos muito a "temer", mas não podemos negar que este destino foi o que escolhemos.

Aceite-mo-lo, pois.

"Não resta nada a dizer"(3).

(1) Fernando Pessoa.
(2) Paulo Leminski.
(3) Samuel Beckett.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quarentinha na cachola

Uma efeméride é, segundo o dicionário, algo passageiro, que só dura um dia, coisa fugaz. 
Minha efeméride, hoje, é a comemoração dos meus 40 anos. 4 décadas de vida é um número a se considerar. Alguns podem dizer que alcancei, finalmente, a "idade da razão". Não tenho tanta certeza disso. Em todo caso, estou me sentindo pessoalmente satisfeito. É claro que, dentro de mim, sinto o desejo e o anseio por muitas coisas a se conquistar, pois reconheço que não conquistei nem metade das coisas que eu queria. Mas aqui estou. Quarenta anos. Uma vida inteira pela frente. A vida que começa. Jovem ainda. Um brinde aos clichês.
Com um ano, eu era tão bonitinho.

O que me deixa feliz de verdade é poder chegar a esta idade e ter o privilégio de ter meus pais vivos, de ter alguns amigos que posso considerar de verdade, de estar em São Paulo, estar feliz no amor e estar bem comigo mesmo. 
Algo marcante para mim foi finalmente ter lido o clássico "Uma breve história do tempo", de Stephen Hawking, neste ano. Ainda que meu entendimento da teoria da física e dos preceitos matemáticos seja, confesso, limitado - e que talvez eu tenha conseguido compreender direito só uns 30% da obra, posso dizer que tornou-se um livro para mim fundamental, que ampliou deveras minha compreensão das coisas e me fez refletir sobre nosso estágio primitivo em contraste com nosso desejo inerente de saber por que estamos aqui e de onde viemos. Hawking é um herói, e isso é mais uma coisa boa desses 40 anos: ter a honra de ser contemporâneo de um gênio. 
Agora, aos 40, eu continuo engraçadinho por demais. 
Algo que me chamou atenção bastante no livro, para além das elocubrações físico-matemáticas e a sua perspectiva filosófica, foi o final do livro. No apêndice, Hawking faz uma pequena análise da personalidade de três grandes gênios: Albert Einstein, Isaac Newton e Galileu Galilei. Os três foram, a seu modo e a seu tempo, responsáveis pelos avanços da ciência e do racionalismo que formam a gênese do método científico e dos avanços tecnológicos empreendidos contemporaneamente. No entanto, Hawking chama atenção para aspectos pouco lembrados quando se evoca a memória desses três grandes indivíduos: suas dúvidas, suas limitações humanas, suas titubeações, sua submissão à ordem, seus receios e medos. 

Sobre os três, para além das grandes conquistas proporcionadas por suas mentes brilhantes, é possível notar que tiveram, cada qual em determinados momentos, atitudes questionáveis e até mesmo deploráveis, no campo da ética, do confrontamento aos seus detratores e no campo pessoal.

Albert Einstein (1879-1955): responsável pelas bases teóricas da bomba atômica, envolveu-se em política e jamais aceitou o princípio da incerteza como algo válido na física. 

Einstein envolveu-se com política, ao ponto de, mesmo tendo sido ateu durante toda sua vida, ter por questões pontuais e contextuais, apoiado o sionismo e a criação do estado de Israel. Foi-lhe oferecida, inclusive, a presidência do país, em 1952 - o que ele, prudentemente, recusou. Também foi responsável direto pelo desenvolvimento do projeto que levou à construção da bomba atômica - ainda que tenha passado o restante de seus dias pregando o pacifismo e a não utilização da energia nuclear em guerras. Também cometeu vários erros. O principal, talvez, tenha sido o fato de, mesmo com a evidência de sua teoria ter sido responsável pelo desenvolvimento do conceito de colapso gravitacional e do princípio da incerteza, ele ter renegado isso veementemente durante toda sua vida. 

Isaac Newton (1643-1727): o típico gênio irascível, cruel e sem escrúpulos, sedento de honrarias e poder
Newton é um pouco pior. É possível, sob certo aspecto, considerar seu comportamento como digno de um canalha, um mau-caráter. Era extremamente competitivo, vingativo e egocêntrico. Fez articulações políticas para se dar bem e assumir cargos importantes, como a presidência da Royal Society, e também para receber o título de cavaleiro real. Brigou abertamente com o astrônomo real John Flamsteed, que forneceu inúmeros dados responsáveis pelo desenvolvimento de sua obra mais importante, os Principia Mathematica. Depois de ter outros dados negados por Flamsteed, Newton passou a ter uma atitude vingativa contra ele, apagando sistematicamente quaisquer referências à Flamsteed nas edições posteriores dos Principia. Contra o filósofo Gottfried Leibniz, Newton foi ainda mais cruel: por coincidência, ambos haviam desenvolvido de maneira independente um ramo da matemática, o cálculo infinitesimal. No entanto, Newton publicou seu trabalho anos depois de Leibniz (ainda que hoje se saiba que Newton tenha desenvolvido o cálculo antes de seu rival). O fato do alemão ter recebido os louros causou fúria em Newton, e ele não poupou esforços para humilhar o filósofo, até que Leibinz fosse formalmente acusado de plágio, por um comitê da Royal Society (da qual, como se disse, Newton era presidente, e que foi formado somente por seus amigos). Quando o filósofo morreu, em 1716, Newton declarou que poucas coisas na vida o deixaram mais feliz do que ter "partido o coração de Leibniz". 
O filósofo Gottfried Leibniz (1646-1716) teve sua reputação destruída por Newton
(que afirmou ter tido enorme prazer com isso)
De Galileu, é notória sua submissão à Igreja e à Inquisição, tendo sido obrigado a renegar a teoria heliocêntrica, e depois disso, ter sido condenado à prisão domiciliar até o fim de sua vida. Mesmo assim, em nenhum momento Galileu renegou a fé católica, que o oprimiu, prejudicou seu trabalho e humilhou publicamente. Acovardou-se, e calou-se contra a estupidez dos cardeais e da Inquisição, ainda que suas ideias tenham sido difundidas e publicadas, num drible às imposições da Igreja.

Galileu (1564-1642) acovardou-se diante da Igreja e da Inquisição, mesmo tendo razão. Foi condenado à prisão domiciliar perpétua, e ainda assim, continuou católico.
O que quero dizer ao evocar essas histórias é que a vida das pessoas, em seus aspectos mundanos e banais, é muito parecida, sempre. Temos esses e outros exemplos de como grandes gênios podem ser grandes canalhas, ou grandes fracotes, no dia a dia. Mas o que fica é algo maior, é a consciência ou os atos que possam, de algum modo, levar ao crescimento da humanidade. Galileu, Newton, Leibniz, Einstein são pouco lembrados por suas facetas humanas e falíveis, mas sobretudo por suas ideias, que permitiram à humanidade avançar.

Eintein declarou, uma vez, que era "ingênuo demais" para a política, arrematando com essa frase, que para mim, resume a ópera: "Equações são mais importantes para mim, pois a política existe para o presente, ao passo que uma equação existe para a eternidade". 

Quero para mim o espírito desse pensamento, para que possa servir como consolo diante desses tempos estranhos, e também para deixar um pouco menos pesado o fato de eu estar comemorando meus 40 anos em meio a um golpe de gente torpe contra a democracia em meu país. 

Ainda assim, agradeço por tudo. 

E vamos rumo aos próximos 40! Sem medo de ser feliz. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Paraguay: reencontros, descobertas, emoções, alegrias

"The world is just a little town/
  Everybody tries to put us down"
                    Isolation, John Lennon

Entre os dias 4 e 8 de janeiro, visitei, pela terceira vez desde 2009, o Paraguai. Desta vez, estive em três locais: Ciudad del Este, Puerto Presidente Franco e Asunción. Pretendo contar um pouco desta visita na série de postagens que serão publicadas durante os próximos dias. Os três principais objetivos desta viagem foram cumpridos: reencontrar/ reforçar os laços de amizade que mantenho no Paraguai; comprar livros sobre a história da Guerra da Tríplice Aliança e da Guerra do Chaco, sobre Antropologia e Etnografia,  e também volumes da obra de Augusto Roa Bastos; andar pelas calles e conhecer um pouco melhor o mais antigo centro administrativo da América do Sul, conhecido como "la madre de ciudades" - antes que se instale qualquer controvérsia, não custa lembrar: Asunción foi fundada pelos espanhóis em 16 de agosto de 1537, como capital do Vice-Reinado do Prata; e Salvador, pelos portugueses em 29 de março de 1549, como sede do Governo-Geral do Brasil. A cidade é também, ao lado de Georgetown, Paramaribo e Caiena, das menos conhecidas das capitais Sul-Americanas.

"La otra piel", catálogo de etno-desenhos organizado por Luz Ayala Urbieta,
Secretaria Nacional de Cultura, Asunción, 2011. 

O impulso que me levou a voltar outra vez ao país vizinho está ligado a fatos que, se permanecem surpreendentes para os incautos, nada demais têm para quem se interessa com genuíno respeito sobre o povo paraguaio e sua trajetória - de resto, não apenas importante, mas quizás essencial para se compreenderem as conjunturas, maquinações, tragédias, aventuras, encontros e desencontros, carinhos e desinteligências, terrores e amores ocorridos ao longo dos séculos entre nossas duas nações irmãs. Uma compreensão superficial sobre o Paraguai (e também sobre Latino-América, os povos indígenas, a escravidão, o ouro, o diamante, o tropeirismo, as plumagens e a cana de açúcar, a doutrina cristã, as missões jesuíticas, as religiões originais dos povos autóctones e as religiões afro-americanas, o recente ciclo da soja, e também sobre a autodeterminação dos povos) sempre deixará lacunas na interpretação e tomada de consciência sobre a nossa própria trajetória, enquanto brasileiros. Isso, talvez, poderia ser suficiente como argumento para convencer a quem quer que pense que conhecer o Paraguai é fruto de excentricidade. Não é: e não é preciso nada mais do que um passo para, afinal, tomar coragem e passar alguns quilômetros além da fronteira física e geográfica, e com isso, também ultrapassar as fronteiras mentais que marcam a visão de muitos brasileiros sobre  a nação guarani.
"La otra piel" destaca trabalhos de campo realizados no Paraguai e no Brasil por inúmeros antropólogos,
entre os quais Guido Boggiani (1861-1902); Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Darcy Ribeiro (1922-1997).
Uma série de sentimentos, pensamentos, emoções, e também leituras, reflexões, observações aproximações, opiniões, sempre profundamente pessoais e intuitivos, ao longo dos anos, moldaram meu interesse pelo Paraguai. Isso começou provavelmente quando eu tinha 12 anos de idade e estive pela primeira vez do outro lado da Ponte da Amizade, numa viagem de passeio que fiz com meu irmão, meu pai e dois amigos dele. A cidade àquele tempo ainda se chamava Puerto Stroessner - idolatria ao general-ditador que governou o país com mão de ferro entre 1954 e 1989, e morreu exilado no Brasil em 2006, sem ser preso pelos crimes cometidos durante o tempo em que esteve no poder. Nós frequentávamos o Paraguai, como a maior parte dos brasileiros o fazem até hoje, para comprar bugigangas: tênis "chinezinho"; mini-video-games; skates; e, a maior novidade mim e meu irmão (e, por extensão, nossos e nossas colegas de escola), chicletes em formato de bolinhas coloridas, exatamente como havia nos filmes americanos que passavam na Sessão da Tarde e na Tela Quente - simplesmente, impossíveis de se encontrar no Brasil daquele tempo.

Augusto Roa Bastos (1917-2005), autor do épico "Yo, el Supremo", que narra a trajetória de Francia, fundador do Paraguai,
recebeu o Prêmio Cervantes, maior distinção das literaturas de língua espanhola, em 1989.

Uma das impressões mais fortes para mim, naquele momento, foi o espanto que senti diante da visão dos jovens soldados do exército paraguaio, que patrulhavam as ruas do centro comercial fardados, com um capacete de guerra, armados com um fuzil carregado. Os adultos nos contaram que o serviço militar era obrigatório no Paraguai, e que se recrutavam meninos menores de idade. Por isso, ao observar os soldados que pareciam ser pouco mais velhos do que eu e meu mano, além de uma certa tristeza por sua condição, que em mim sublevava o medo de vê-los armados, me fazia ter certeza de que eu tivera muita sorte em ter nascido no lado brasileiro.
A figura do ditador Alfredo Stroessner, soberano do Paraguai por mais de três décadas, era absoluta, ao ponto da segunda maior cidade do país ter sido batizada com seu nome. (Foto: Centro Cultural El Cabildo, Asunción).

Com o passar do tempo, meu interesse pelo país menos conhecido do Cone Sul foi aumentando. Em busca do que seria o verdadeiro Paraguai, que eu intuía ser muito distinto dos clichês que continuam a se propagar no discurso comum dos brasileiros, eu passei a prestar atenção a tudo o que se referisse ao país: livros, música, notícias, história, nomenclaturas, palavras. Durante certo tempo, as informações eram quase sempre escassas, limitadas e difíceis de encontrar. Isso me levava a refletir sobre a condição peculiar do país vizinho: mesmo dividindo 1290 km de fronteira com o Brasil,  o Paraguai parecia (e de certa forma, continua a parecer) muitas vezes mais distante e isolado de nós que o Quirguistão ou o Laos. Sempre considerei isso esdrúxulo, e todas as vezes que posso, faço o possível para que esse estado "tão perto, tão longe" seja cada vez menos comum em nossas relações.

Essa postura me permitiu ter a sorte de, em 2008, em colaboração com o Grupo Cine de Novo, organizar a Mostra de Cinema Paraguaio, realizada em Ponta Grossa, Paraná, numa parceria que envolveu a pró-reitoria de extensão da UEPG e a Dirección Nacional del Audiovisual da Secretaría Nacional de Cultura do Paraguai.

A história dessa mostra merece um aparte: em agosto de 2007, eu conheci Julie Banks, à época representante da Dirección del Audiovisual, que viera à Curitiba para apresentar a produção cinematográfica paraguaia durante uma semana cultural do país, realizada por iniciativa das diplomacias brasileira e paraguaia na capital do Paraná - estado brasileiro que tem a mais próxima relação com o Paraguai. A programação incluía uma mostra de filmes paraguaios - algo até então completamente inédito no Brasil. Julie também proferiria uma palestra sobre a produção audiovisual no Paraguai. Durante a palestra, enquanto eu a ouvia falar sobre as condições particulares e complexas de se fazer cinema em seu país - de resto, similares às de todo o panorama do cinema latino-americano - e que ainda assim, conseguia realizar produção de qualidade, eu matutava: "Seria legal levar isso pra PG".

Fui falar com ela, pedi seu cartão, voltei pra PG, onde eu vivia, convoquei a tchurma do Cine de Novo e lhes apresentei a ideia. Nós havíamos realizado um ano antes uma mostra integral com os filmes de Sérgio Bianchi - que viera a Ponta Grossa especialmente para o evento, mais de 40 anos depois de haver deixado sua cidade natal para se tornar um dos grandes nomes do cinema brasileiro. Estávamos empolgados, e pela segunda vez, conseguimos firmar parceria com a PROEX-UEPG, então chefiada pelo escritor e professor Miguel Sanches Neto, que teve sensibilidade e coragem de encampar, oficializar e dar sustentação logística a ambos os eventos.  Daquele momento em diante, cultivo amizade com Julie Banks e sua família, o que facilitou e permitiu minhas duas visitas à Asunción.

Julie Banks, então chefe da Dirección Nacional del Audiovisual do Paraguay, é entrevistada por repórter da TV Educativa. Ponta Grossa, fevereiro de 2008.


Em 2009, estive em Asunción pela primeira vez. Naquela viagem (cujo relato pode ser encontrado neste link, neste aqui, e neste aqui também), conheci duas pessoas absolutamente encantadoras, que se tornaram uma referência pessoal, ética e emocional em minha vida. O aprendizado, respeito e recordações entre mim e eles são profundos: don Oscar Banks, pai de Julie, 92 anos de uma vida intensa e repleta de histórias, e Aurelia Amarilla Rivarola,  que aos 87 anos continua a trabalhar como professora de Didática Universitária na Universidade Metropolitana de Asunción. Ambos vivem hoje em um apartamento agradável no Distrito 6, entre as ruas Egidio Ayala e Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Asunción, onde tive a honra e o prazer de ter sido seu hóspede por 5 dias, nesta viagem.

Minha amizade com Oscar e Aurelia foi para mim, desde sempre, algo profundamente forte, carregado de emoção e carinho, que são por sua vez fruto do profundo respeito que desde o primeiro momento em que os vi, em 2009, cultivo em relação à eles, como casal, e às suas respectivas histórias pessoais. Naquela vez, Oscar ainda podia dirigir (algo que não faz mais desde que sofreu uma queda que o deixou debilitado, em 2015). Saímos Aurelia, Oscar e eu num passeio por Asunción, que culminou em um café no centro da cidade, quando Aurelia me disse algo de que jamais esqueci: "André, yo sé que estoy vieja; la cara no miente. Pero en mi corazón, sientome como una niña de 17 años".
2009: no café em Asunción, depois de um passeio panorâmico no Lada Samara de Oscar.
Aurélia me disse que se sentia como "una niña de 17 años". Hoje, ela tem 87, e ele, 92.


Desta feita, me fiz seu hóspede e tive a oportunidade de ouvir e aprender com a história e o exemplo de suas vidas, suas experiências, suas vivências, passadas entre o Paraguai, a Argentina, o Uruguai, a Venezuela, o Brasil, os Estados Unidos, a Europa, o Norte da África. Narradas sempre com sobriedade, humildade, fraternidade, solidariedade, humanismo, hospitalidade, alegria, sorrisos, trabalho, coragem e ações que são exemplos, não apenas suas individualidades, mas todo o povo paraguaio, posto que ambos os dois, sozinhos ou como casal, são representantes autênticos das principais características de seu povo e seu país.

Em frente ao Centro Cultural El Cabildo, 2015: novamente com meus anfitriões e mestres da vida, 
muita emoção para matar as saudades dos amigos e do Paraguay.

Oscar Banks é uma figura ímpar: último remanescente da fundação da Faculdade de Medicina Veterinária do Paraguai, falante de 5 idiomas (espanhol, guarani, português, inglês e alemão), foi piloto de avião, administrador de empresas, diretor de safári, fundador da villa de Puerto Fátima. Uma vida inteira dedicada a seu país, sua família e à fraternidade universal. Aos 92 anos de idade, ostenta como poucos a alegria de uma vida longa, intensa e bem vivida, e colhe os louros das homenagens oficiais por sua contribuição à causa nacional - sempre proba, correta, honesta e justa - e o carinho e cuidado de sua família e seus amigos.

Aurélia Rivalora é um exemplo de vitalidade, com 87 anos é reconhecida como uma das grandes maestras - professoras do país. Continua a formar novas gerações na universidade, é requisitada como professora e pesquisadora, e busca através de seu exemplo pessoal, sua sólida formação intelectual, fazer com que a educação no Paraguai se fortaleça e seja democratizada. Além disso, é dona de profunda sensibilidade e senso de humor, além de grande compreensão estética, o que a faz ser dona de um charme pessoal único e marcante.

A vida dos dois é simplesmente uma linda história de amor: Oscar foi casado por mais de 50 anos, e ficou viúvo nos anos 2000. Aurélia estava também sozinha. Haviam sido amigos na juventude, e 65 anos depois, se reencontraram e, diante das circunstâncias, resolveram de comum acordo passar a viver juntos. Desde então, são um dos casais mais lindos do mundo: antes de tudo, amigos, que tratam de tomar conta um do outro e continuar a produzir, criar, trocar, simbolizar e sorrir, com 9 décadas de vida.

Aurélia e Oscar: quase nonagenários, exemplo de humor, alegria, companheirismo, hospitalidade e amor.


Esta primeira parte do relato foi concluída na Choperia do Tito. Está dedicada à memória de David Bowie.

Nos próximos dias, o relato continua.




segunda-feira, 15 de junho de 2015

Goodbye, Johnnie

Meu tio João Edemir faleceu ontem.
Um exemplo de dignidade, humildade, abnegação, solidariedade, Joãozinho foi sempre um ser humano afetuoso, correto, coerente, discreto. 
Para mim, particularmente, foi um amigo, um tio de quem eu gostava demais, com quem eu pude conviver desde criança, com quem aprendi muito, e com quem dividi alguns momentos únicos, dos quais não me esquecerei jamais. 
Estou muito triste, profundamente consternado.
Mas quando penso na dignidade e na correção de caráter de meu querido tio, especialmente a maneira honrada com que ele viveu e com que ele encarou a doença que acabou por lhe abreviar a existência, e sobretudo no amor sincero que ele dedicou aos seus filhos, filha e netas e neto, à minha tia, aos seus irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, eu me sinto confortado. 
Joãozinho vai fazer uma falta tremenda. Tenho em meu coração um buraco que não será preenchido. Mas eu vou me lembrar dele com o carinho que eu tinha para um tio maravilhoso, amável, afetuoso, que para mim sempre foi o sinônimo do Bem.
Vai em paz, Johnny. 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Yoko Ono, de novo.

*Todas as imagens que ilustram esta postagem são de propriedade do MoMA e têm autorização de uso.

O mais importante museu de arte moderna do planeta acredita que a arte de Yoko Ono é fundamental para o século 20. Por isso, resolveu homenagear a artista com uma retrospectiva intitulada "Yoko Ono: One Woman Show 1960-1971", que estreia dia 17 de maio e fica em cartaz até 7 de setembro de 2015, no MoMA, e está instalada numa das prestigiosas galerias do sexto andar do prédio principal do Museu, em Nova York. 
Mas, para muita gente, Yoko ainda é sinônimo de controvérsias. A mais maledicente, especialmente porque há muito superada por todos os remanescentes envolvidos, é de que ela "foi responsável pelo fim da maior banda do mundo". Quantos dos que pensam assim, no entanto, seriam capazes de indicar o período em que Yoko e John foram casados? Ou então, citar dentre as canções de Yoko, only, quais as mais significativas? 
Na opinião do curador da exposição, Klaus Biesenbach, "Nos anos 60, Yoko Ono foi uma artista influente, historicamente relevante e antecipadora de tendências, trabalhando em Londres, Tóquio e Nova York. Suas realizações estão quase ofuscadas pela fama. Nós queremos descortiná-las". 
O que Biesenbach afirma, qualquer um que tenha a mente aberta suficientemente para fugir da idolatria aos Beatles ou conheça um mínimo da história da arte, já sabe há muito tempo. Muitos dos detratores de Yoko Ono assim agem por:
Yoko Ono durante a performance "Cut Piece", no Carnegie Hall, 1965. 
A) desconhecimento ou desconsideração proposital do trabalho de Ms. Ono DEPOIS da morte de John, e, fundamentalmente, ANTES dela ter se tornado Ms. Lennon.
B) desconhecimento ou desconsideração do trabalho que a "feiticeira" (yes, i'm a witch) fez DURANTE o período em que esteve casada com John - e que inclui obras colaborativas e outras totalmente independentes (ouçam o disco "A Story", gravado em 1974, mas somente lançado em 1997);
C) total desconhecimento ou desconsideração pelo que ela vem fazendo a partir dos anos 2000, quando retomou de maneira intensa sua carreira - que, diga-se, jamais havia sido interrompida totalmente, apenas tivera o ritmo reduzido pelo trauma pós-Lennon (ainda assim, ela lançou 3 discos-solo entre 1981-85).
Quando um fã de John ou dos Beatles rejeita Yoko, significa que, na verdade, sua compreensão sobre a obra de John Lennon apresenta considerável lacuna. Manter tal gap corresponde a recusar a obra de uma das artistas mais significativas do nosso tempo. Dizendo de outro modo: não há nada que justifique a desconsideração pelo trabalho artístico de Yoko Ono, a não ser a malemolência ou, pior, o puro preconceito.
Ono sobreviveu às piores tormentas, foi caluniada, difamada, teve sua obra acusada de incompreensível e foi caricaturizada por isso. No dia seguinte à morte do marido, cena torpe da qual foi testemunha ocular, isso tudo assumiu dimensão muito mais ampla e aterradoramente cruel do que havia sido. O bullying intenso a que ela fora submetida na década de 1970 tornou-se motivo de vergonha e arrependimento para quem o praticava. 
"Pintura para ver no escuro". 1961. Coleção MoMA. Foto de G. Maciunas. 
Hoje, sua obra é novamente revisitada, e o melhor, significativamente endossada pelo MoMA, sem os velhos clichês estúpidos, reconhecida por seu valor dentro do contexto do desenvolvimento da arte no
século 20. 
Não custa lembrar: a turma de Yoko Ono antes do seu envolvimento com o showbizz e a beatlemania tinha gente como Maciunas, Cage, G. Brecht, Knowles, Mac Low, Higgins, Beuys. Essa gente, por sua vez, era influenciada pelo grupo C.O.B.R.A e por Dadá, Marcel Duchamp & Allan Kaprow.
A artista japonesa radicada nos Estados Unidos é um raro exemplo de coerência entre vida e obra. Seu nome é sinônimo de força, compaixão, coragem, firmeza. Sua arte, sinônimo de complexidade estética, amor, leveza, pureza, delicadeza, experimentalismo e profundidade, que surgem, na maior parte, da esperança e do humor que ela sempre carregou consigo, mas não esquecem de pagar seu óbolo à dor, à revolta e ao sentimento de injustiça contra a censura. Afinal, não existe forma de censura mais cruel ou definitiva do que a pena de morte. Alguém que teve o marido assassinado diante dos seus olhos não poderia pensar de outra maneira.
Yoko Ono tem 82 anos de idade, e continua a viver em Nova York.


Yoko diante da série de fotografias da performance "Big Piece", que integram a exposição no MoMA, 2015.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

No Paraná, a Irmã do McSorley's


O McSorley's - um dos mais antigos bares de Nova Iorque
Tuffi Cury, o Tito - 73 anos à frente de sua choperia, inaugurada em 1933. (Foto - Lente Quente)


A Choperia do Tito é o bar mais antigo do Paraná. Na verdade, chamá-lo de “bar” é quase um despropósito, uma vez que para seus frequentadores, o Tito é semelhante a um templo, um tradicional local de encontro e peregrinação, síntese do estilo boêmio e do espírito de época que há muito vem sendo olvidado e substituído no Brasil pelos pastiches da última moda.


A Revista Piauí, em sua centésima edição (janeiro de 2015), publica a clássica narrativa do jornalista norte-americano Joseph Mitchell sobre o bar do McSorley, em Nova York. A leitura do texto levou-me a inevitáveis comparações com o estabelecimento paranaense. Considerando o evidente distanciamento temporal e cultural entre as histórias, os estabelecimentos e suas respectivas cidades, há muitas semelhanças entre o McSorley’s e o Tito. Pra começar, a longevidade: quando Mitchell publicou seu relato na The New Yorker, o McSorley’s acabara de completar 86 anos de funcionamento. O Tito, por sua vez, em 2015 comemora 83 anos, 59 deles no mesmo endereço – rua Coronel Dulcídio, centro de Ponta Grossa. 


O McSorley’s, fundado por um imigrante irlandês como Old House at Home, teve como proprietários membros de duas famílias – sua dona à época da reportagem era filha de um cliente que havia adquirido o bar do filho de seu fundador, com a promessa de mantê-lo imune a qualquer mudança. A distinta senhora herdeira do McSorley’s cumprira a promessa e manteria em vigor suas regras e características.


O Tito abriu suas portas em 1933 como A Deliciosa, dirigido por um imigrante alemão de nome Germano Betse, seu gerente até 1935, quando o vendeu para Theobaldo Justus. Em 1942, outro imigrante – desta vez, o comerciante libanês Oadi Cury – adquiriu o estabelecimento, com o objetivo de deixá-lo como legado ao filho, Tuffi Cury, apelidado de Tito, então um jovem de 17 anos que havia sido funcionário do bar, e acabaria por ser seu proprietário até a década de 2000. Em 2001, o estabelecimento passou para seus netos, os irmãos Hudson e Anderson Wiecheteck, atualmente à frente da choperia. Aos 89 anos, Tuffi atende no balcão de segunda à sexta, no horário de almoço dos netos.


O bar nova-iorquino era frequentado por um público masculino tradicional e fiel, e também por eventuais curiosos em busca de lugares únicos e peculiares, a quem era permitido beber e compartilhar do local, desde que respeitassem o espírito e a rotina do lugar. Mulheres não eram admitidas. 


A “fauna” que frequenta o Tito é também muito parecida com a do McSorley’s: boêmios de longa data, cada qual com seu próprio estilo e manias, que sentam-se nos mesmos lugares e contam as mesmas histórias. Alguns bebem em copos exclusivos, e vão lá para conversar, contar piadas, falar mal do governo – não importa qual seja – e beber. Artistas, intelectuais e até políticos aparecem esporadicamente. O mais velho frequentador do Tito é o “seu” Silvestre – no bar desde 1942. Hoje, aos 89 anos – a mesma idade de seu amigo Tuffi –, com algumas restrições de saúde, continua a marcar presença aos sábados para beber sua garrafa de cerveja. 


Apesar de nunca ter sido misógina, a choperia sempre teve um espírito masculino – no começo, seus frequentadores eram operários da ferrovia e das outras fábricas, serrarias, oficinas e olarias da região, que lá iam para beber dignamente seu chope após a labuta diária. Já nesse tempo, mulheres eram toleradas, mas era bastante incomum encontrar uma dama bebendo no local. Na década de 1980, a figura feminina passou a ser vista com mais frequência, e hoje, ainda que a maioria dos frequentadores sejam homens, há várias mulheres que passaram a ter o Tito como seu bar – primeiro, acompanhadas dos amigos, namorados e maridos, e depois, tornadas elas mesmas frequentadoras cativas. Nenhum sutiã foi queimado, nem ofensa proferida: no Tito, as mulheres são sempre bem-vindas. O desrespeito a qualquer frequentador - seja homem ou mulher - é punido com a exclusão do direito de frequentar o local. 


O Tito preserva o balcão, o armário de bebidas, as mesas, cadeiras, a caixa registradora e a máquina de corte de frios desde os tempos da “Deliciosa”. Há também algumas garrafas de bebidas antigas, alguns barris de chope da fábrica de cerveja Adriática (também fundada por um alemão, comprada pela Companhia Antarctica Paulista na década de 1930, cujo maior legado é a cerveja “Original”, criada em 1931, e hoje tornada rótulo da Ambev), e quadros com fotos e textos louvando as qualidades do local. Mas seu grande tesouro é a antiga chopeira, que sem uso da eletricidade, transporta o precioso e desejado líquido por duas serpentinas de cobre, com 30 metros cada uma, e que jorra em suas torneiras para alegria do freguês - chope que fez sua fama por todas essas quase 9 décadas de funcionamento. Poucas coisas são comparáveis ao prazer de beber um chope tirado pelas mãos do Tito: a bebida sai lentamente, até formar uma colarinho de 5 cm, acrescentando ao prazer de sorver a bebida um prazer estético em apreciá-la no copo. É o que cria a empatia e garante a fidelidade de seus mais antigos clientes. Dificilmente, alguém entra no Tito e sai de lá insatisfeito.


Como resultado de um litígio entre o estabelecimento e o proprietário do imóvel, a choperia correu o risco de fechar suas portas em 2003. Após um acordo na Justiça, o Tito pode permanecer no local – mas teve que ceder seu reservado, que ficava aos fundos do imóvel e trazia ainda mais intimismo e clima ao local.


Mesmo tendo perdido o acesso ao reservado (que permanece vazio desde a pendenga judicial), a Choperia do Tito permanece como um dos mais autênticos bares do Brasil, uma ilha que manteve milagrosamente suas características e seu espírito intocados, mesmo com a avalanche que pôs fim a quase tudo o que era autêntico e hoje não passa de memória dos velhos boêmios que frequentaram locais parecidos pelo Brasil afora. Há 83 anos, funciona nos mesmos horários: das 9 às 20h durante a semana, e das 9 às 14h aos sábados. 


Curiosamente, Tuffi Cury, responsável por um dos mais saborosos chopes servidos no país, nunca bebeu. Apenas uma vez teria experimentado sua bebida, e chegado à conclusão de que era muito amarga para seu paladar. Isso, no entanto, não o impede de servir o chope do modo tradicional, em uma tulipa de cristal, na temperatura ideal – nem gelado demais, nem quente como a cerveja do McSorley’s -, sempre com o colarinho que lhe preserva o sabor. Quando alguém aparece e pede “chope sem colarinho”, Tito costuma dizer “Ih, rapaz, você precisa aprender a beber. Chope sem colarinho você só encontra em outro lugar”. E serve o neófito como se deve, da maneira de sempre. Afinal, beber também é uma forma de aprender.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Fórum Mundial das Bicicletas: impressões

O cicloativismo se tornou um viral. Em inúmeras cidades brasileiras e mundiais, há uma evidente busca pela utilização cada vez maior das bikes. No caso brasileiro, entre as várias cidades médias e capitais, poucas ficaram de fora da onda biker -  que fomentou discussões, bicicletadas, e com a presença cada vez maior de ciclistas, fez com que muita gente se equipasse e começasse a aderir ao uso do transporte em duas rodas - principalmente para o lazer e - em casos menores - para a locomoção no dia a dia.
Ainda que seja muito encontrar gente sempre mais interessada em ciclioatividades, e outras tantas pessoas pedalando, quando se fala em ciclismo no Brasil, é preciso atentar para algumas características próprias da locomção em duas rodas enquanto expressão de setores da sociedade brasileira. Pra começar, podemos observar o surgimento de um grupo de ciclistas "neófitos", influenciados pelo marketing em torno onda biker global - em geral, este grupo é composto de pessoas com um perfil sócio-econômico mais elevado, que aderiram recentemente ao ciclismo e pedalam apenas em determinados momentos de lazer. Este grupo quase nunca faz uso da bicicleta na sua rotina de locomoção urbana, ainda que isso, obviamente, não desmereça o fato de encontrarmos em cidades onde o ciclismo sempre foi uma aberração ou uma excentricidade - como, por exemplo, Belo Horizonte (MG) ou Ponta Grossa (PR), cidades que conheço do ponto de vista da vivência do ciclista urbano - um renovado interesse pelo ciclismo. 
Este movimento tem inclusive ajudado a difundir a ideologia da biciclsta na cidade e contribuído para pressionar o poder público, em alguns casos, para que passe a contemplar em seus projetos e obras de infraestrutura a mobilidade urbana (escrevo isso com vontade de rir amarga e ironicamente, porque sei o quanto isso é difícil de ser efetivado nos planos diretores das cidades no Brasil), seja através de políticas que priorizem o transporte intermodal, ou da criação de ciclovias e ciclofaixas, ou ainda, implementando regras e leis para melhorar o convívio dos ciclistas com a cidade como um todo. De qualquer maneira, a presença de centenas ou milhares de ciclistas nas ruas de algumas das principais cidades brasileiras em pedaladas organizadas, traz visibilidade para a questão do ciclismo, e também tensiona e convoca outras pessoas a aderirem, ainda que em determinados momentos, à bicicleta.
Charlote Fagan, da ONG norte-americana"Bikes not Bombs": distribuindo bicicletas em áreas de conflito (muitas vezes criados pelas políticas de seu próprio governo).
A questão da visibilidade do ciclista urbano é crucial para o ciclismo: quem não é visto, é atropelado.

Por isso, quanto mais as bicicletas se tornarem parte da paisagem urbana, mais seremos lembrados como parte do trânsito e consequentemente, haverá um maior respeito à bicicleta ocupando seu espaço nas ruas, avenidas, compondo a paisagem urbana do nosso tempo.
A partir desse reconhecimento, tal questão pode suscitar reflexões mais profundas.
Nas grandes cidades brasileiras, temos uma categoria de ciclistas que não pertence aos extratos sócio-econômicos mais privilegiados: este grupo é composto essencialmente por trabalhadores, que há muito tempo perceberam a importância da bicicleta como fator de impacto econômico em sua vidas. Andar de bicicleta, para muita gente, não é uma alternativa - é a única forma de não ser obrigado a pagar pelo caro e ineficiente transporte coletivo, que come boa parte dos recursos e da saúde mental dos trabalhadores e seus demais usuários.
As cidades brasileiras não são amigas do ciclismo ou dos ciclistas. É desnecessário relembrar os braços arrancados e jogados em rios poluídos, os atropelamentos, as mortes, as fechadas, as facadas no coração - tantos exemplos da generalizada falta de educação dos motoristas e o clima de hostilidade em nossas ruas e vias expressas por parte dos motoristas para com aqueles que pedalam.
A integração desses "ciclistas invisíveis" é fundamental para a discussão a respeito de um ciclismo que ultrapasse o mero lazer ou modismo. E é urgente que as demandas, problemas e também as ideias desses "ciclistas invisíveis" sejam incorporados ao discurso e às reivindicações do cicloativismo brasileiro.
É evidente e incontestável que o III Fórum Mundial das Bicicletas, realizado em Curitiba, foi um evento importantíssimo, especialmente por agregar experiências de diversos matizes e de diversas partes do mundo, permitir a troca de ideias e o aprendizado ampliado a respeito das bikes, dos modos de pedalar, dos objetivos, da organização, das viagens, das mudanças sociais, culturais, educacionais e econômicas que a bicicleta pode oferecer, etc. etc. etc.
O Fórum foi feito praticamente na raça, sem patrocínios. Reuniu várias cabeças pensantes, pessoas que vieram de inúmeros países e regiões para relatar suas experiências e suas práticas a favor da inserção da bicicleta como uma alternativa limpa, correta, barata e prática no cotidiano urbano neste século 21. A bicicleta não é uma utopia - ela é uma das tecnologias mais poderosas e criativas já inventadas, e quando se aplica de maneira ampliada, como parte de um planejamento comum à uma comunidade, torna-se uma ferramenta crucial na melhoria da vida das pessoas, não importa em que parte do mundo elas vivam.
Pedalar, ademais, não tem nada de vanguarda: é um retorno ao passado sem carro, um mundo mais lento e mais silencioso, e talvez por isso mesmo, mais humano.
Fernando Rosembaum - proprietário da Bicicletaria Cultural, no centro de Curitiba
Entretanto, é preciso dizer que o Fórum não se abriu para a sociedade. O cidadão comum da capital do Paraná não percebeu e ficou indiferente à realização deste tão importante evento. As discussões ficaram restritas ao nicho de interessados e aficionados, ou dos envolvidos completamente no cicloativismo.
O "ciclista invisível" das grandes cidades - e que está aqui em Curitiba a pedalar das periferias para o seu trabalho diariamente, espremido entre o preconceito, o trânsito hostil e o riso dos idiotas - definitivamente não se fez presente no fórum, a não ser em algumas discussões mais pontuais, como a do guatemalteco Carlos Marroquin, indígena que vive em uma comunidade no interior da Guatemala e que foi responsável por implementar e por em prática diversas soluções relacionadas com a tecnologia da bicicleta, conseguindo, através disso, melhorar substancialmente a vida, a dinâmica, o cotidiano e a economia de seu pueblo centro-americano. A criação de "bici-moinhos", "bici-descascadores de sementes", "bici-moedores de café", "bici-bomba de água" faz significativa diferença em sua comunidade.
Acompanhei a intervenção da estadunidense Charlote Fagan. Ela é representante da ONG "Bikers not Bombs", e expôs a atuação de sua organização na "promoção da justiça social e solidariedade norte/sul" a partir da difusão da bicicleta. O trabalho da "Bikers not Bombs" é levar bicicletas para zonas de conflito ou bolsões de pobreza (como o Afeganistão, o Iraque e diversos países africanos) e ajudar comunidades afetadas pela guerra ou pela exclusão econômica a desenvolver sua economia e educação a partir da autonomia  através da ciclomobilidade. Ouvindo a fala da senhorita Fagan, entretanto, não pude deixar de refletir que sua ONG e outras organizações similares com origem nos Estados Unidos façam ações deste tipo em lugares onde o exército e a serviço secreto de seu país são desencadearores das crises que as ONG's pretendem mitigar. Fagan afirmou ter "sorte por trabalhar em uma organização que tenha dinheior". Também admimitiu, quando questionada por mim, que o Fórum não era para os "ciclistas invisíveis", mas para a "classe média". Apenas uma constatação do óbvio.

A bicicleta de bambu: vanguarda tecnológica ou retorno ao passado?
Em geral, o que observei na fala de Fagan permeaou por todo o Fórum: a ausência de uma discussão que deliberasse mais aprofundadamente sobre a dificuldade de se implantar o ciclismo no Brasil como meio de transporte público efetivo e disseminado. Todos sabemos que, por conta de nosso trânsito hostil e, sobretudo, da ausência ações educativas que estejam relacionadas com políticas públicas claras, especialmente nas cidades médias, não conseguimos avançar na revisão do transporte público e suas formas de financiamento. Por isso, ao invés de priorizar os interesses da maioria da população, preferimos garantir as concessões aos grandes grupos econômicos, deixando-os responsáveis pelo de transporte público e as grandes obras viárias nas cidades.

Em minha opinião, a principal demanda do cicloativismo brasileiro é justamente romper essa barreira cultural e educacional: de que modo fazer com que as cidades brasileiras passem a ser mais amigáveis ao ciclismo, e progressivamente levar mais gente a utilizar a bicicleta como meio de transporte? Sem fomentar a educação em conjunto com um programa de adesão gradual ao ciclismo, implantado através de políticas públicas claras e efetivas, isso continuará impossível.
Mesmo com o frio e da chuva curitibanos, muitas bicis no bicicletário do Museu Oscar Niemeyer.
Apesar dessas constatações, é muito importante reconhecer como algumas ações tem sido exemplares no fomento ao ciclismo em Curitiba. Um exemplo é a Bicicletaria Cultural, que promove o cicloativismo, dá cursos sobre mecânica, oferece pequenos serviços, orienta pessoas que querem começar seu negócio com ciclismo e ainda oferecem estacionamentos para bikes, em lugar estratégico no centro da capital. 
Bicicleta como moinho: invenção do guatemalteca Carlos Marroquin
Vivenciar o ciclismo durante esses dias chuvosos, fazendo as ressalvas, foi bastante importante. Do ponto de vista pessoal, me inspirou a continuar a pedalar e a militar por uma sociedade mais aberta ao ciclismo - pois todos temos a ganhar com isso, em termos de saúde, economia, logística, visão de mundo, amor, paz e tudo o mais de bom que as bicis proporcionam.
Também fiquei com uma vontade tremenda de viajar de bike, como fizeram os ciclistas Danilo Perotti Machado, que conheceu 59 países em 3 anos sob sua bike, e Antonio Olinto, que é um inspirador e um cara que viajou pelo mundo também somente em duas rodas. 
Quem sabe não chegou finalmente minha vez?
A lição que tirei do Fórum é que a humanidade vai acabar se aproximando mais e mais das bicicletas - talvez pela própria iminente necessidade de se reoganizar e se reinventar como espécie - como seu principal meio de transporte. Talvez isso não demore nem 50 anos pra acontecer,quem sabe ocorra antes do que possamos imaginar. Se você não pedala, é sempre a hora de começar. 





Por toda parte, as dobráveis tomavam conta do espaço.

Antonio Olinto: fomentando o cicloturismo a partir de sua experiência como ciclista global.

Danilo Machado: 59 países, uma bicicleta, 3 anos, 3 meses e 3 dias. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Exercício e tradução: Lord Byron

Fiz um pequeno exercício de tradução. O trecho escolhido foi a primeira estrofe do Canto III, LXXXVI, do poema Don Juan, escrito pelo poeta romântico inglês Lord Byron (1788-1824). Sem maior pretensão que não um relaxamento entre uma e outra leitura mais séria.
Segue abaixo.

Lord Byron; Excerto do poema “Don Juan”, Canto III, LXXXVI.

The Isles of Greece, the Isles of Greece!
The Isles of Greece, the Isles of Greece!
Where burning Sapho loved and sung,
Where grew the arts of war and peace,
Where Delos rose, and Phoebus sprung!
Eternal summer gilds them yet,
But all, except their sun, is set!

Tradução
As ilhas da Grécia, as ilhas da Grécia!
Onde a ardente Safo amou e cantou,
Onde nasceram as artes da Guerra e da Paz,[1]
Onde Delos floresceu, e Phoebus brotou![2] [3] [4]
Por um eterno verão ainda dourados,
Tudo, menos seu sol, está engastado![5]
                                                                                                                




[1] A tradução literal excluiria a expressão preposicionada “da” como indicativo do substantivo “Paz” (“the arts of war and peace”). Trata-se de uma tentativa de aproximação do ritmo e da métricas originais, que  exercem função crucial para a coesão e para a fruição do poema.

[2] Aqui, optei por manter a forma clássica, também por questões de ritmo e tonalidade: “Phoebus”, no original, é aproximadamente como “fibus” (perdoem a transcrição fonética pobre).

[3] Delos: pequena ilha no centro do mar Egeu, consagrada ao deus Apolo (ou Febo), considerada pela mitologia seu local de nascimento, bem como de sua irmã, Artemis (Diana).

[4] Phoebus, Febo (forma grega: Ἀπόλλων): deus Greco-romano da música, da luz e da beleza.

[5] A opção por traduzir “set” como “engastar” deu-se pelas inúmeras possibilidades contextuais de uso do verbo em inglês. Entre outras, figuram significados distintos como: estabelecer, fixar, por (por do sol) mas também designar, marcar e demarcar, exemplificar, indicar, solidificar, endurecer,  montar e engastar (embutido, incrustado, intercalado). Entenda-se no verso que “o sol (que ilumina Delos e é o próprio Apolo) está engastado no arrebol.  A vantagem é manter a rima em português. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Lou Reed



A notícia me pegou de surpresa. Não fazia ideia de que ele estava doente. Lou Reed parecia sempre muito forte, criativo. Um cara que nos surpreendia, e mesmo quando ouvia os discos da época de sua crise musical, que durou mais ou menos uns 10 anos, entre o fim da década de 1970 - quando ele parecia ter perdido a mão -  e o disco "New York", de 1989 - quando ele recuperou sua verve musical e poética - eu tinha a impressão de que o seu jeito de cantar e tocar guitarra eram únicos. Sua voz grave e seu jeito de cantar, quase declamando as letras nas canções, sempre foram muito impactantes. Meu domingo ficou realmente triste, chorei como se tivesse morrido um tio ou um irmão mais velho.
Lou Reed entrou em minha vida num momento em que eu superava minha fase "beatlemaníaco xiita". E quando ouvi os discos do Velvet Underground pela primeira vez, aos 17 ou 18 anos, aquilo mudou de tal maneira meu modo de pensar que eu nunca mais fui o mesmo. Inclusive, por conta do novo "vício" musical, eu acabei desapegando dos Beatles. Pura bobagem, da qual eu me arrependeria logo mais - depois de me desfazer de uns LP´s dos fabfour, por conta do novo amor, encontrei uma vez um artigo escrito pelo próprio Reed em que ele assumia também ser beatlemaníaco, e dizia que sua música existia por causa do som dos ingleses. Saber disso foi mais impactante ainda. Tive que recuperar os LP's dos Beatles extraviados, e outra obsessão passou a fazer parte de minha alma de colecionador - ter os discos dos Beatles e dos Velvets por inteiro.
Ano passado, concretizei esse sonho de adolescente - comprei de uma vez só os 4 discos clássicos do Velvet, em edições de luxo, e me pus a ouvir obsessivamente, como fazia nos tempos de vadiagem juvenil, em que só o rock´n roll dava sentido pra minha vida. 
Tive a sorte de, em 1996, num daqueles episódios de que a gente se orgulha para o resto da vida, assistir ao show de Lou Reed, em São Paulo. Uma aventura sem parâmetros - eu vinha de Belo Horizonte, onde por acaso havia encontrado uma edição espanhola do disco Rock´n Roll Heart (1976), que até hoje é um dos meus preferidos, para encontrar meus quatro amigos Zé, Sérgio, Cassiana e Angelo, que vieram eles mesmos de carona, desde Ponta Grossa, para assistir ao show. 
Ninguém tinha grana, e só conseguimos os ingressos porque naquele tempo, ver shows internacionais no Brasil não custava o preço de um automóvel popular. Compramos, obviamente, os ingressos mais baratos - o que, para nossa surpresa, nos deu direito a ficar de frente ao palco, no antigo Palace. Éramos 5 jovens amigos, meio caipiras, mas unidos pelo que a música de Lou Reed e do Velvet Underground significava para nós. Chovia em cântaros, nós estávamos hospedados num apartamento de um amigo meu, que era dirigente do movimento estudantil e emprestou a casa enquanto estava fora. Foi um show maravilhoso, do qual nunca esqueci, e que até hoje me dá saudades - em especial, porque lembro do guitarrista todo de preto, no palco, tocando por quase três horas, diante de uma plateia enlouquecida. Foi o último show daquela turnê, e Lou e banda voltaram para 3 bis.
Semana passada, ouvi "Magic and Loss", seu disco de 1992, que eu não ouvia há tempos, e fiquei feliz porque para mim o disco soa com o mesmo frescor da primeira vez que eu o pus pra tocar na vitrola. É estranho pensar que agora ele não está mais nesse mundo, e que ouvir seus discos solo ou com o Velvet Underground vai ter outro sentido. 
Sinto-me muito triste. Mesmo sabendo que ele tinha 71 anos, estava doente, havia feito um transplante de fígado, e que, afinal, as pessoas morrem. Há um vazio em meu coração - e acredito, no coração de todos os que amaram sua música, e tiveram suas vidas transformadas por ela. 
Descanse em paz, Lou Reed. Para mim, você sempre será um mestre.  

quinta-feira, 25 de julho de 2013

GALO DAS AMÉRICAS


é uma hora da manhã. estou sozinho, em curitiba. está chovendo. eu não queria estar aqui. eu era o ÚNICO a torcer pelo galo, e durante todo o jogo, lembrei de todas as vezes que assisti os jogos no mineirão, e do quanto isso tudo significa para mim, emocionalmente. talvez na cidade inteira, eu fosse o único a sofrer com toda a massa atleticana. fui praticamente expulso do bar onde SÓ EU gritava GALO! GALO! a cada lance, a cada pênalti, a cada defesa. e antes que me acusem de louco, contraditório, alienado, vira-casacas, demente, bobo, infantil, o que queiram, é preciso que entendam: É O GALO, porra. a torcida mais sofrida do MUNDO, talvez. sofreram por 42 anos a ausência de um título de relevância, que correspondesse à altura do amor incondicional, do sofrimento insano, da galoucura que essa MASSA carregou nas costas por 4 décadas. ouvindo chacotas de todo mundo, em especial do maior rival. tendo que engolir calado, enrolar as bandeiras, chorar e sofrer. muito semelhante ao outro grande time das massas, que foi campeão de tudo no ano passado, e calou a boca dos rivais e dos "antis" e trouxe felicidade e alegria à sua não menos inflamada torcida: talvez seja exatamente o sofrimento sem sentido, insano, demente, exagerado, exaltado o verdadeiro e único combustível dessa MASSA que só cresce, que é cada vez maior e que vai onde o seu time está. essa mesma massa que eu vi chorando, quando era humilhada pelos rivais, que ouvia a chacota, o tiração de onda, a provocação, hoje ri, e ri da mesma maneira que chorava: louca, insana, demente, sem sentido. o FUTEBOL, não tenho dúvidas, é o MAIS ALIENANTE ANESTÉSICO popular. há os cartolas corruptos, falastrões, com suas declarações infelizes e seus passados obscuros (como o próprio presidente do atlético e o presidente da cbf personalizam o que talvez haja de pior nesse esporte). há as relações escusas entre a política que mascara as mazelas do país com estádios superfaturados e publicidade de produtos terríveis. há os salários e a super-valorização de atletas, chamados de "heróis", mas que em sua maioria representam a frustração de um país que não valoriza seus intelectuais, seus artistas, seus professores. e tudo por causa de uma bola. se formos realmente racionais, críticos, coerentes, se quisermos "melhorar o país", temos que admitir: o FUTEBOL É A MAIOR BESTEIRA. mas e daí? vá explicar isso pros 60 mil MALUCOS que lá estavam, gritando, chorando, brigando, e pra todos os milhões que choravam, cantavam, sofriam pelo país inteiro, verdadeiramente como um GALO que não para de brigar! o sentido do futebol é esse mesmo. tive o prazer de conhecer essa torcida, de ter sido recebido em minas gerais, e ter balançado meu coração por essa  emoção demente,  e ter compreendido que é isso mesmo, que é loucura, que é bobagem, é perda de tempo. mas É A MELHOR PERDA DE TEMPO DO MUNDO. o GALO merece. e todos os meus amigos e amigas mineiros, sejam torcedor@s  do galo ou não, merecem também essa loucura, que simboliza muito bem o que MINAS GERAIS é: antes de mais nada UM ESTADO DE ESPÍRITO. meu coração está lá, em bh, em plena praça sete, com o POVO. eu abraço a cada um dos torcedores e torcedoras deste CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, CAMPEÃO DAS AMÉRICAS, que FINALMENTE de forma SOFRIDA, como NENHUM OUTRO TIME JAMAIS SOFREU, consegue dar à sua maravilhosa e inflamada torcida o TÍTULO MAIOR do qual ela estava tão carente nestas 4 décadas. o fato de eu estar aqui, hoje  nesta fria e por vezes estranha curitiba (sem desrespeito ao que eu também amo e aos que eu também amo aqui) considero um acidente de percurso, uma etapa que se inspira no sofrimento que mobilizou a torcida do galo por tantos e tantos anos, mas que FINALMENTE faz sentido. o sofrimento nos une. é loucura, eu sei. algo me diz que estou voltando. hoje, nesta gélida curitiba,  torcendo como se eu tivesse sido galo desde criancinha(e talvez eu seja, já não tenho mais certeza), me senti verdadeiramente CAMPEÃO DO GELO. PARABÉNS CLUBE ATLÉTICO MINEIRO, galo forte, vingador. o sofrimento acabou.