terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Poesia concretada

Neste texto, não usarei o epíteto "Ponga Trossa" para me referir à Princesa dos Campos, como tem sido contumaz em algumas manifestações orais e escritas.

A relação com minha cidade natal, Ponta Grossa, Paraná, sempre foi marcada por múltiplas ambiguidades. Nascido e crescido aqui, desde a adolescência, fui tomado por uma espécie de obsessão: abandonar de vez a tediosa Princesinha dos Campos, a cidade conservadora, quatrocentona, retrógrada, careta, que agredia com seu retrocesso e burrice, e cujo maior símbolo foi para mim, durante o longo tempo em que aqui vivi, o sentimento constante de deslocamento e antipatia aos círculos sociais habituais, que marcou boa parte de minha trajetória. Saí, mas meu retorno é sempre marcado por sentimentos alternados, a nostalgia e a beleza junto da constatação da estupidez e rude recriação dos espaços urbanos.

No entanto, tal situação de sentir-se nômade bérbere dentro de seu próprio "lugar de origem", permitiu o treino de um olhar observador, desde tenra idade atento a detalhes que em geral passavam despercebidos, ou então eram deliberadamente desvalorizados e esquecidos pelos agentes oficiais - públicos e privados. Tal desvalorização contaminou sobremaneira o cidadão-médio e as camadas periféricas da cidade que acabou por se tornar padrão a auto-imagem negativa e destrutiva sobre o passado e a memória ao longo de várias décadas.

Por ter sido o descaso histórico objeto da análise, dos estudos e das pesquisas de intelectuais mais gabaritados do que eu no meio acadêmico, opto por escrever sobre a city de uma maneira mais poética, sentimental,  menos analítica ou marcada pela tentativa de compreender à luz da sociologia os meandros de sua transformação urbana. Optei apenas por observar, com o olhar de ex-habitante, que ainda se permite participar de algumas cenas.

Tive talvez minha maior lição de fotografia em meados de 2001, quando por acaso encontrei o fotógrafo Raul Bianchi tomando sua cerveja no balcão do antigo Fundo de Quintal na rua XV. Naquela ocasião, ele me disse: "Treine seu olhar. O bom fotógrafo é sobretudo um observador de detalhes e instantes exatos, que são irrepetíveis combinações de luz e ação. Quem observa, ainda que tenha uma câmera Xereta, conseguirá produzir boas fotos. Quem não observa, mesmo com o melhor equipamento, as melhores lentes e os melhores recursos, jamais conseguirá uma boa fotografia".

Dentro do espírito desta filosofia, as imagens que ilustram este post foram feitas com a câmera de um celular Motorola já meio capenga. Reconheço que a captação não foi das melhores - bem como a técnica do fotógrafo. Mas procurei colocar o sentimento do dia de hoje no olhar dessas fotos.

Coisas inusitadas e peculiares preencheram o dia. A começar, o encontro incomum com um beija-flor que, talvez assustado ou afetado pelo calor, sentou-se num poste e quase se deixou acariciar - quando toquei suas costas, ele saiu voando e sentou-se no fio de luz. Ao longo do dia, encontrei duas carcaças outras de beija-flores, o que me fez pensar se algum tipo de situação poderia estar causando a morte desses pássaros.
Um beija-flor vivo

A PG que busco todas as vezes que tenho a oportunidade de vir pra cá com tempo livre é a mesma que encantava meu olhar de menino-adolescente, quando eu vadiava perambulando a esmo - "parmiando" Ponta Grossa desde priscas eras.

Percebi muito cedo que a destruição do centro histórico, iniciada na década de 1970 e ainda não concluída totalmente, jogava fora não apenas o mais importante e representativo conjunto arquitetônico do Estado. Também censurava de maneira insensata e injustificada as visões da cidade às novas gerações - visões que vem sendo distorcidas, destruídas ou apagadas a partir de sucessivas decisões equivocadas dos detentores das "leis". A cidade pôs abaixo sem cerimônia, sem pudor, e por vezes de forma cínica, todas as referências históricas importantes de seu passado - a começar pela antiga Catedral de Santana, construída em 1900 e demolida em 1978 (com as bênçãos do bispo, o alvará de demolição assinado pelo prefeito e os aplausos da sociedade, que berrava pelo "progresso").  Hoje, vivemos da nostalgia e das "fotografias na parede", como diz a famosa poesia de Drummond.

Antiga catedral de Santana, demolida em 1978. (Acervo Foto Elite - Ponta Grossa)

Entretanto, ainda assim é flagrante como ainda resistem pela cidade determinadas peculiaridades, determinadas paisagens que são o contraste entre o mundo bucólico já talvez sem lugar neste tempo, e a urbe que insiste em estender suas garras e ruas e parques e conjuntos habitacionais e redes de água e esgoto e linhas de transporte público, sempre insuficientes e ineficazes para os habitantes de todos os fundos de vale e espaços inexplorados da cidade, que se tornaram condomínios no melhor estilo "pombal".

A beleza bucólica da Princesa dos Campos

Desde que cheguei, fiz alguns passeios a pé por alguns bairros e pelo centro. O que pude constatar foi que o processo de metamorfose auto-destrutiva, baseado somente na especulação imobiliária e no produto de seus dividendos, assume uma nova fase nesta segunda década do século 21 - a verticalização absurda dos espaços urbanos. É impressionante o "boom" das novas construções, marcadamente de prédios com 15, 20 andares, que começaram a se proliferar desde uns 5 anos para cá, por quase toda cidade.

O que restou da antiga Ponta Grossa e suas particularidades urbanas vai aos poucos dando lugar para construções enormes, em bairros que jamais deveriam receber prédios gigantes, mas que que acabam tendo substituídos seus espaços abertos e longas vistas do horizonte, patrimônios de todos os princesinos, pela imposição de estranha, esdrúxula e distorcida visão de "crescimento urbano" e "progresso" sem planejamento, sem pensar nas pessoas, e que vai aos poucos inviabilizando qualquer ação urbana mais eficaz para a cidade de pouco mais de 350 mil habitantes.

 Cena comum: a patrola marca o início da construção de um novo prédio sobre os escombros das casas antigas

Em todos o bairros por onde andei - Nova Rússia, Uvaranas, Oficinas, Olarias, Jardim Carvalho, Órfãs), encontrei obras, tapumes, terrenos baldios, terraplanagens, demolições, entulhos, prédios gigantes em construção, placas indicativas de novos empreendimentos e quiosques para vendas de apartamentos. O processo de demolição sistemática da cidade se manifesta uma vez mais, 40 anos depois do estúpido bota-abaixo da Catedral, do palácio episcopal, dos casarões, dos barracões e da rotunda da Rede, das instalações da indústria Adriática e das indústrias Wagner, e recentemente o prédio do Cine Império...


 Onde outrora havia um casarão, logo haverá um predião.

Tapume mostra apenas a ponta do iceberg

Ao longe, a antiga igrejinha de Uvaranas, vai sendo substituída como ponto de referência pelo prédio gigante que brota do chão


A cidade ainda resiste, de qualquer forma. Ainda há poesia pelas esquinas, pelas colinas, pelos cantos e pelos campos da Princesa. Ainda se vê o horizonte - mesmo que a visão única do nascer e do por do sol no alto do centro velho já não seja mais possível como era, em alguns pontos.

Até quando resistirá?

Prédios

Prédios que brotam do chão

Prédios que aparecem do nada 
Prédios que se impõem e se tornam donos da paisagem, da vista, do sol, do céu, do espaço, da cidade inteira



Em breve, hospede-se em um glamuroso prédio de vidro, com todo conforto

Em Aleppo é parecido. Mas lá tem uma guerra. 

Espigas tornam aos poucos PG num paliteiro

Será por isso que os beija-flores estão morrendo?

Muros que cercam a visão

Este céu tem seus dias contados

A facilidade em financiar seu apartamento

Qual o sentido em sequestrar a vista de quem não vai morar no alto da torre?

Ao fundo, o pavão misterioso católico: o bizarro disco-voador de ferro e vidro que substituiu a antiga catedral

18 andares.

Igreja dos Polacos

Em meio a tanta destruição do antigo, resistem as antigas casas de madeira

Mas o canteiro de obras parece espreitar os olhos da velha PG para roê-los










quinta-feira, 12 de maio de 2016

Brasil-Colônia, século 21

Eis a aurora do novo Brasil que já nasce velho.

Foto: Pedro Ladeira, FolhaPress.

Acordamos, outra vez, aturdidos pela avalanche de acontecimentos aparentemente inesperados na condução dos jogos do poder, que nos levarão a não se sabe que porto incerto - ou a que nova tempestade. Tivéssemos a maioria de nós, por um momento que fosse, a "consciência histórica" sobre o que hoje nos parece um sobressalto, uma surpreendente reviravolta em um processo que a até alguns segundos parecia firme, isso não nos surpreenderia tanto.

A verdade é que a história da ficção chamada Brasil, ainda que queiram os mais ufanos (e portanto, mais presos à cegueira) pintá-la de gloriosa, é e sempre foi a expressão da mais profunda leniência, da mais trágica mediocridade, da mais cruel ignorância, da mais infame servidão e da sublime incongruência de um povo que sempre preferiu ser espectador de sua própria história. Uma vez mais, isso está evidente, diante dos lamentáveis acontecimentos que tomam corpo no dia de hoje.

É lamentável também, sob todos os aspectos, que a maioria de nós prefira o conforto da alienação e do individualismo (in)consciente, e prefira novamente entregar sem contestação aos seus verdugos de sempre a vida, a força, o trabalho, a cultura que poderiam já ter feito de nós, há muito tempo, uma nação ímpar dentre todas as outras. A situação de hoje parece mais grave ainda porque, ao contrário dos livros de história, estamos vivenciando o processo que é o auge de outro atroz retrocesso em nossa errática trajetória.

Nossa constituição como nação é, de per se, historicamente marcada por percalços e violências, alienação e servidão. Nossa linha do tempo resume-se na submissão coletiva à ordem autocrática que sempre nos impeliu a entronizar as estruturas sórdidas dos poderes fundados em nome dos direitos "divinos" de alguns. A esses, sempre se permitiu a autonomia, a terra, o usufruto de espaços públicos e privados, a educação, a saúde, o trabalho e a vida dignos. E  aos outros, a imensa maioria, permite-se apenas contentar-se com as rações cotidianas que mal servem para manter em pé o mínimo possível para ser qualificado humano, no limite da animalidade - e me refiro aqui não apenas ao flagelo da falta de comida, mas principalmente à fome de justiça, de educação, de autonomia e independência, que sempre foram negadas à maioria de nosso povo - e das quais, ao que se parece, nosso povo, paradoxalmente, nunca sentiu falta.

Ao longo de nossa história, nos constituimos como uma sociedade de castas, com as elites econômicas e sociais, os donos dos meios de produção e comunicação, e, portanto, os donos das almas, capitaneando os benefícios dos frutos gerados pelo suor e pelos esforços de todo o resto da massa. Nosso povo segue sua trajetória, sem objetivos maiores ou mais gloriosos, que seriam ou deveriam estar simbolizados no construir de fato uma nação. É um sintoma disso a constatação de que seja justamente entre o povo que se encontrem aqueles que defendem e garantem a "ordem" do "direito divino" das elites aristocráticas, mesmo não tendo os defensores da "ordem", na maior parte das vezes, acesso senão às migalhas e sobras das delícias que são destinadas à aristocracia rural-urbano-industrial, sentadas sempre sobre o latifúndio das terras e dos meios de produção e de comunicação. À ralé, resta sobreviver a cada dia, tarefa mais do que árdua, mas sempre feita sem contestação, porque a ralé segue anestesiada com as mentiras e seduções superficiais que lhes são empurradas goelas e mentes abaixo através da crueza imbecilizante da sociedade e da religião do espetáculo, vendidas a crediário.

Caímos outra vez no "conto da pátria amada". A mesma mentira que fez os escravos e libertos sem-terra se convencerem de que iam à Guerra do Paraguai "defender a terra brasileira" - terra esta que nunca lhes pertenceu, e que jamais foi ameaçada pelos paraguaios, não ao menos como queriam fazer crer os senhores do Império, e que nem mesmo ao fim da guerra, lhes foi concedida. Desta vez, com o acréscimo da segregação e da secessão entre setores do povo e da assim chamada "classe média", vivemos no limiar da aniquilação do que poderia ser o gérmen de um pensamento crítico. Não há espaço, nem lugar, para o que seja contraditório. Vivemos tempos obscuros, absolutistas, em que a lei do mais forte - ou do que tem mais força para gritar - se sobrepõe ao diálogo. Isso tudo segundos depois de, tal qual na história platônica, uns poucos terem vislumbrado uma nesga de iluminação. Aqueles que viram luz foram conduzidos coercitivamente, para usar uma expressão que em muito sintetiza o momento, a voltar às correntes, à escravidão, à cegueira do rosto acorrentado contra a parede, pois a luz foi entendida outra vez como ilusão pela maioria cega, e mais ainda, evocá-la foi considerado subversão pelos donos das tochas que projetam sombras à caverna.

É isso. Escolhemos nosso destino, e não há como contestá-lo. Escolhemos a escravidão à autonomia, à preguiça de pensar à auto-crítica, a televisão à emancipação, o individualismo ao sentimento de nação, a segregação à união, a inveja à cooperação. 

As consequências do que ocorre hoje , somente o tempo vai comprovar. Mas temo que, num futuro não muito longínquo, a ideia de "Brasil" quiçá seja entendida como mero lampejo, arco-íris de um povo que poderia ter sido e que não foi, do país que poderia ser autônomo, indepentende, grandioso, colossal, o "florão da América iluminado ao sol", como evocam as falsas glórias de nossos hinos e cânticos de guerra, mas que por razões incompreensíveis, preferiu se apequenar, se ajoelhar, se acovardar diante de suas próprias contradições.

"Triste de quem é feliz"(1). "Pobre de um país pobre de ideias" (2).

Pobre Brasil: tão longe de Deus, tão perto do pré-sal.

Temos muito a "temer", mas não podemos negar que este destino foi o que escolhemos.

Aceite-mo-lo, pois.

"Não resta nada a dizer"(3).

(1) Fernando Pessoa.
(2) Paulo Leminski.
(3) Samuel Beckett.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quarentinha na cachola

Uma efeméride é, segundo o dicionário, algo passageiro, que só dura um dia, coisa fugaz. 
Minha efeméride, hoje, é a comemoração dos meus 40 anos. 4 décadas de vida é um número a se considerar. Alguns podem dizer que alcancei, finalmente, a "idade da razão". Não tenho tanta certeza disso. Em todo caso, estou me sentindo pessoalmente satisfeito. É claro que, dentro de mim, sinto o desejo e o anseio por muitas coisas a se conquistar, pois reconheço que não conquistei nem metade das coisas que eu queria. Mas aqui estou. Quarenta anos. Uma vida inteira pela frente. A vida que começa. Jovem ainda. Um brinde aos clichês.
Com um ano, eu era tão bonitinho.

O que me deixa feliz de verdade é poder chegar a esta idade e ter o privilégio de ter meus pais vivos, de ter alguns amigos que posso considerar de verdade, de estar em São Paulo, estar feliz no amor e estar bem comigo mesmo. 
Algo marcante para mim foi finalmente ter lido o clássico "Uma breve história do tempo", de Stephen Hawking, neste ano. Ainda que meu entendimento da teoria da física e dos preceitos matemáticos seja, confesso, limitado - e que talvez eu tenha conseguido compreender direito só uns 30% da obra, posso dizer que tornou-se um livro para mim fundamental, que ampliou deveras minha compreensão das coisas e me fez refletir sobre nosso estágio primitivo em contraste com nosso desejo inerente de saber por que estamos aqui e de onde viemos. Hawking é um herói, e isso é mais uma coisa boa desses 40 anos: ter a honra de ser contemporâneo de um gênio. 
Agora, aos 40, eu continuo engraçadinho por demais. 
Algo que me chamou atenção bastante no livro, para além das elocubrações físico-matemáticas e a sua perspectiva filosófica, foi o final do livro. No apêndice, Hawking faz uma pequena análise da personalidade de três grandes gênios: Albert Einstein, Isaac Newton e Galileu Galilei. Os três foram, a seu modo e a seu tempo, responsáveis pelos avanços da ciência e do racionalismo que formam a gênese do método científico e dos avanços tecnológicos empreendidos contemporaneamente. No entanto, Hawking chama atenção para aspectos pouco lembrados quando se evoca a memória desses três grandes indivíduos: suas dúvidas, suas limitações humanas, suas titubeações, sua submissão à ordem, seus receios e medos. 

Sobre os três, para além das grandes conquistas proporcionadas por suas mentes brilhantes, é possível notar que tiveram, cada qual em determinados momentos, atitudes questionáveis e até mesmo deploráveis, no campo da ética, do confrontamento aos seus detratores e no campo pessoal.

Albert Einstein (1879-1955): responsável pelas bases teóricas da bomba atômica, envolveu-se em política e jamais aceitou o princípio da incerteza como algo válido na física. 

Einstein envolveu-se com política, ao ponto de, mesmo tendo sido ateu durante toda sua vida, ter por questões pontuais e contextuais, apoiado o sionismo e a criação do estado de Israel. Foi-lhe oferecida, inclusive, a presidência do país, em 1952 - o que ele, prudentemente, recusou. Também foi responsável direto pelo desenvolvimento do projeto que levou à construção da bomba atômica - ainda que tenha passado o restante de seus dias pregando o pacifismo e a não utilização da energia nuclear em guerras. Também cometeu vários erros. O principal, talvez, tenha sido o fato de, mesmo com a evidência de sua teoria ter sido responsável pelo desenvolvimento do conceito de colapso gravitacional e do princípio da incerteza, ele ter renegado isso veementemente durante toda sua vida. 

Isaac Newton (1643-1727): o típico gênio irascível, cruel e sem escrúpulos, sedento de honrarias e poder
Newton é um pouco pior. É possível, sob certo aspecto, considerar seu comportamento como digno de um canalha, um mau-caráter. Era extremamente competitivo, vingativo e egocêntrico. Fez articulações políticas para se dar bem e assumir cargos importantes, como a presidência da Royal Society, e também para receber o título de cavaleiro real. Brigou abertamente com o astrônomo real John Flamsteed, que forneceu inúmeros dados responsáveis pelo desenvolvimento de sua obra mais importante, os Principia Mathematica. Depois de ter outros dados negados por Flamsteed, Newton passou a ter uma atitude vingativa contra ele, apagando sistematicamente quaisquer referências à Flamsteed nas edições posteriores dos Principia. Contra o filósofo Gottfried Leibniz, Newton foi ainda mais cruel: por coincidência, ambos haviam desenvolvido de maneira independente um ramo da matemática, o cálculo infinitesimal. No entanto, Newton publicou seu trabalho anos depois de Leibniz (ainda que hoje se saiba que Newton tenha desenvolvido o cálculo antes de seu rival). O fato do alemão ter recebido os louros causou fúria em Newton, e ele não poupou esforços para humilhar o filósofo, até que Leibinz fosse formalmente acusado de plágio, por um comitê da Royal Society (da qual, como se disse, Newton era presidente, e que foi formado somente por seus amigos). Quando o filósofo morreu, em 1716, Newton declarou que poucas coisas na vida o deixaram mais feliz do que ter "partido o coração de Leibniz". 
O filósofo Gottfried Leibniz (1646-1716) teve sua reputação destruída por Newton
(que afirmou ter tido enorme prazer com isso)
De Galileu, é notória sua submissão à Igreja e à Inquisição, tendo sido obrigado a renegar a teoria heliocêntrica, e depois disso, ter sido condenado à prisão domiciliar até o fim de sua vida. Mesmo assim, em nenhum momento Galileu renegou a fé católica, que o oprimiu, prejudicou seu trabalho e humilhou publicamente. Acovardou-se, e calou-se contra a estupidez dos cardeais e da Inquisição, ainda que suas ideias tenham sido difundidas e publicadas, num drible às imposições da Igreja.

Galileu (1564-1642) acovardou-se diante da Igreja e da Inquisição, mesmo tendo razão. Foi condenado à prisão domiciliar perpétua, e ainda assim, continuou católico.
O que quero dizer ao evocar essas histórias é que a vida das pessoas, em seus aspectos mundanos e banais, é muito parecida, sempre. Temos esses e outros exemplos de como grandes gênios podem ser grandes canalhas, ou grandes fracotes, no dia a dia. Mas o que fica é algo maior, é a consciência ou os atos que possam, de algum modo, levar ao crescimento da humanidade. Galileu, Newton, Leibniz, Einstein são pouco lembrados por suas facetas humanas e falíveis, mas sobretudo por suas ideias, que permitiram à humanidade avançar.

Eintein declarou, uma vez, que era "ingênuo demais" para a política, arrematando com essa frase, que para mim, resume a ópera: "Equações são mais importantes para mim, pois a política existe para o presente, ao passo que uma equação existe para a eternidade". 

Quero para mim o espírito desse pensamento, para que possa servir como consolo diante desses tempos estranhos, e também para deixar um pouco menos pesado o fato de eu estar comemorando meus 40 anos em meio a um golpe de gente torpe contra a democracia em meu país. 

Ainda assim, agradeço por tudo. 

E vamos rumo aos próximos 40! Sem medo de ser feliz. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Paraguay: reencontros, descobertas, emoções, alegrias

"The world is just a little town/
  Everybody tries to put us down"
                    Isolation, John Lennon

Entre os dias 4 e 8 de janeiro, visitei, pela terceira vez desde 2009, o Paraguai. Desta vez, estive em três locais: Ciudad del Este, Puerto Presidente Franco e Asunción. Pretendo contar um pouco desta visita na série de postagens que serão publicadas durante os próximos dias. Os três principais objetivos desta viagem foram cumpridos: reencontrar/ reforçar os laços de amizade que mantenho no Paraguai; comprar livros sobre a história da Guerra da Tríplice Aliança e da Guerra do Chaco, sobre Antropologia e Etnografia,  e também volumes da obra de Augusto Roa Bastos; andar pelas calles e conhecer um pouco melhor o mais antigo centro administrativo da América do Sul, conhecido como "la madre de ciudades" - antes que se instale qualquer controvérsia, não custa lembrar: Asunción foi fundada pelos espanhóis em 16 de agosto de 1537, como capital do Vice-Reinado do Prata; e Salvador, pelos portugueses em 29 de março de 1549, como sede do Governo-Geral do Brasil. A cidade é também, ao lado de Georgetown, Paramaribo e Caiena, das menos conhecidas das capitais Sul-Americanas.

"La otra piel", catálogo de etno-desenhos organizado por Luz Ayala Urbieta,
Secretaria Nacional de Cultura, Asunción, 2011. 

O impulso que me levou a voltar outra vez ao país vizinho está ligado a fatos que, se permanecem surpreendentes para os incautos, nada demais têm para quem se interessa com genuíno respeito sobre o povo paraguaio e sua trajetória - de resto, não apenas importante, mas quizás essencial para se compreenderem as conjunturas, maquinações, tragédias, aventuras, encontros e desencontros, carinhos e desinteligências, terrores e amores ocorridos ao longo dos séculos entre nossas duas nações irmãs. Uma compreensão superficial sobre o Paraguai (e também sobre Latino-América, os povos indígenas, a escravidão, o ouro, o diamante, o tropeirismo, as plumagens e a cana de açúcar, a doutrina cristã, as missões jesuíticas, as religiões originais dos povos autóctones e as religiões afro-americanas, o recente ciclo da soja, e também sobre a autodeterminação dos povos) sempre deixará lacunas na interpretação e tomada de consciência sobre a nossa própria trajetória, enquanto brasileiros. Isso, talvez, poderia ser suficiente como argumento para convencer a quem quer que pense que conhecer o Paraguai é fruto de excentricidade. Não é: e não é preciso nada mais do que um passo para, afinal, tomar coragem e passar alguns quilômetros além da fronteira física e geográfica, e com isso, também ultrapassar as fronteiras mentais que marcam a visão de muitos brasileiros sobre  a nação guarani.
"La otra piel" destaca trabalhos de campo realizados no Paraguai e no Brasil por inúmeros antropólogos,
entre os quais Guido Boggiani (1861-1902); Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Darcy Ribeiro (1922-1997).
Uma série de sentimentos, pensamentos, emoções, e também leituras, reflexões, observações aproximações, opiniões, sempre profundamente pessoais e intuitivos, ao longo dos anos, moldaram meu interesse pelo Paraguai. Isso começou provavelmente quando eu tinha 12 anos de idade e estive pela primeira vez do outro lado da Ponte da Amizade, numa viagem de passeio que fiz com meu irmão, meu pai e dois amigos dele. A cidade àquele tempo ainda se chamava Puerto Stroessner - idolatria ao general-ditador que governou o país com mão de ferro entre 1954 e 1989, e morreu exilado no Brasil em 2006, sem ser preso pelos crimes cometidos durante o tempo em que esteve no poder. Nós frequentávamos o Paraguai, como a maior parte dos brasileiros o fazem até hoje, para comprar bugigangas: tênis "chinezinho"; mini-video-games; skates; e, a maior novidade mim e meu irmão (e, por extensão, nossos e nossas colegas de escola), chicletes em formato de bolinhas coloridas, exatamente como havia nos filmes americanos que passavam na Sessão da Tarde e na Tela Quente - simplesmente, impossíveis de se encontrar no Brasil daquele tempo.

Augusto Roa Bastos (1917-2005), autor do épico "Yo, el Supremo", que narra a trajetória de Francia, fundador do Paraguai,
recebeu o Prêmio Cervantes, maior distinção das literaturas de língua espanhola, em 1989.

Uma das impressões mais fortes para mim, naquele momento, foi o espanto que senti diante da visão dos jovens soldados do exército paraguaio, que patrulhavam as ruas do centro comercial fardados, com um capacete de guerra, armados com um fuzil carregado. Os adultos nos contaram que o serviço militar era obrigatório no Paraguai, e que se recrutavam meninos menores de idade. Por isso, ao observar os soldados que pareciam ser pouco mais velhos do que eu e meu mano, além de uma certa tristeza por sua condição, que em mim sublevava o medo de vê-los armados, me fazia ter certeza de que eu tivera muita sorte em ter nascido no lado brasileiro.
A figura do ditador Alfredo Stroessner, soberano do Paraguai por mais de três décadas, era absoluta, ao ponto da segunda maior cidade do país ter sido batizada com seu nome. (Foto: Centro Cultural El Cabildo, Asunción).

Com o passar do tempo, meu interesse pelo país menos conhecido do Cone Sul foi aumentando. Em busca do que seria o verdadeiro Paraguai, que eu intuía ser muito distinto dos clichês que continuam a se propagar no discurso comum dos brasileiros, eu passei a prestar atenção a tudo o que se referisse ao país: livros, música, notícias, história, nomenclaturas, palavras. Durante certo tempo, as informações eram quase sempre escassas, limitadas e difíceis de encontrar. Isso me levava a refletir sobre a condição peculiar do país vizinho: mesmo dividindo 1290 km de fronteira com o Brasil,  o Paraguai parecia (e de certa forma, continua a parecer) muitas vezes mais distante e isolado de nós que o Quirguistão ou o Laos. Sempre considerei isso esdrúxulo, e todas as vezes que posso, faço o possível para que esse estado "tão perto, tão longe" seja cada vez menos comum em nossas relações.

Essa postura me permitiu ter a sorte de, em 2008, em colaboração com o Grupo Cine de Novo, organizar a Mostra de Cinema Paraguaio, realizada em Ponta Grossa, Paraná, numa parceria que envolveu a pró-reitoria de extensão da UEPG e a Dirección Nacional del Audiovisual da Secretaría Nacional de Cultura do Paraguai.

A história dessa mostra merece um aparte: em agosto de 2007, eu conheci Julie Banks, à época representante da Dirección del Audiovisual, que viera à Curitiba para apresentar a produção cinematográfica paraguaia durante uma semana cultural do país, realizada por iniciativa das diplomacias brasileira e paraguaia na capital do Paraná - estado brasileiro que tem a mais próxima relação com o Paraguai. A programação incluía uma mostra de filmes paraguaios - algo até então completamente inédito no Brasil. Julie também proferiria uma palestra sobre a produção audiovisual no Paraguai. Durante a palestra, enquanto eu a ouvia falar sobre as condições particulares e complexas de se fazer cinema em seu país - de resto, similares às de todo o panorama do cinema latino-americano - e que ainda assim, conseguia realizar produção de qualidade, eu matutava: "Seria legal levar isso pra PG".

Fui falar com ela, pedi seu cartão, voltei pra PG, onde eu vivia, convoquei a tchurma do Cine de Novo e lhes apresentei a ideia. Nós havíamos realizado um ano antes uma mostra integral com os filmes de Sérgio Bianchi - que viera a Ponta Grossa especialmente para o evento, mais de 40 anos depois de haver deixado sua cidade natal para se tornar um dos grandes nomes do cinema brasileiro. Estávamos empolgados, e pela segunda vez, conseguimos firmar parceria com a PROEX-UEPG, então chefiada pelo escritor e professor Miguel Sanches Neto, que teve sensibilidade e coragem de encampar, oficializar e dar sustentação logística a ambos os eventos.  Daquele momento em diante, cultivo amizade com Julie Banks e sua família, o que facilitou e permitiu minhas duas visitas à Asunción.

Julie Banks, então chefe da Dirección Nacional del Audiovisual do Paraguay, é entrevistada por repórter da TV Educativa. Ponta Grossa, fevereiro de 2008.


Em 2009, estive em Asunción pela primeira vez. Naquela viagem (cujo relato pode ser encontrado neste link, neste aqui, e neste aqui também), conheci duas pessoas absolutamente encantadoras, que se tornaram uma referência pessoal, ética e emocional em minha vida. O aprendizado, respeito e recordações entre mim e eles são profundos: don Oscar Banks, pai de Julie, 92 anos de uma vida intensa e repleta de histórias, e Aurelia Amarilla Rivarola,  que aos 87 anos continua a trabalhar como professora de Didática Universitária na Universidade Metropolitana de Asunción. Ambos vivem hoje em um apartamento agradável no Distrito 6, entre as ruas Egidio Ayala e Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Asunción, onde tive a honra e o prazer de ter sido seu hóspede por 5 dias, nesta viagem.

Minha amizade com Oscar e Aurelia foi para mim, desde sempre, algo profundamente forte, carregado de emoção e carinho, que são por sua vez fruto do profundo respeito que desde o primeiro momento em que os vi, em 2009, cultivo em relação à eles, como casal, e às suas respectivas histórias pessoais. Naquela vez, Oscar ainda podia dirigir (algo que não faz mais desde que sofreu uma queda que o deixou debilitado, em 2015). Saímos Aurelia, Oscar e eu num passeio por Asunción, que culminou em um café no centro da cidade, quando Aurelia me disse algo de que jamais esqueci: "André, yo sé que estoy vieja; la cara no miente. Pero en mi corazón, sientome como una niña de 17 años".
2009: no café em Asunción, depois de um passeio panorâmico no Lada Samara de Oscar.
Aurélia me disse que se sentia como "una niña de 17 años". Hoje, ela tem 87, e ele, 92.


Desta feita, me fiz seu hóspede e tive a oportunidade de ouvir e aprender com a história e o exemplo de suas vidas, suas experiências, suas vivências, passadas entre o Paraguai, a Argentina, o Uruguai, a Venezuela, o Brasil, os Estados Unidos, a Europa, o Norte da África. Narradas sempre com sobriedade, humildade, fraternidade, solidariedade, humanismo, hospitalidade, alegria, sorrisos, trabalho, coragem e ações que são exemplos, não apenas suas individualidades, mas todo o povo paraguaio, posto que ambos os dois, sozinhos ou como casal, são representantes autênticos das principais características de seu povo e seu país.

Em frente ao Centro Cultural El Cabildo, 2015: novamente com meus anfitriões e mestres da vida, 
muita emoção para matar as saudades dos amigos e do Paraguay.

Oscar Banks é uma figura ímpar: último remanescente da fundação da Faculdade de Medicina Veterinária do Paraguai, falante de 5 idiomas (espanhol, guarani, português, inglês e alemão), foi piloto de avião, administrador de empresas, diretor de safári, fundador da villa de Puerto Fátima. Uma vida inteira dedicada a seu país, sua família e à fraternidade universal. Aos 92 anos de idade, ostenta como poucos a alegria de uma vida longa, intensa e bem vivida, e colhe os louros das homenagens oficiais por sua contribuição à causa nacional - sempre proba, correta, honesta e justa - e o carinho e cuidado de sua família e seus amigos.

Aurélia Rivalora é um exemplo de vitalidade, com 87 anos é reconhecida como uma das grandes maestras - professoras do país. Continua a formar novas gerações na universidade, é requisitada como professora e pesquisadora, e busca através de seu exemplo pessoal, sua sólida formação intelectual, fazer com que a educação no Paraguai se fortaleça e seja democratizada. Além disso, é dona de profunda sensibilidade e senso de humor, além de grande compreensão estética, o que a faz ser dona de um charme pessoal único e marcante.

A vida dos dois é simplesmente uma linda história de amor: Oscar foi casado por mais de 50 anos, e ficou viúvo nos anos 2000. Aurélia estava também sozinha. Haviam sido amigos na juventude, e 65 anos depois, se reencontraram e, diante das circunstâncias, resolveram de comum acordo passar a viver juntos. Desde então, são um dos casais mais lindos do mundo: antes de tudo, amigos, que tratam de tomar conta um do outro e continuar a produzir, criar, trocar, simbolizar e sorrir, com 9 décadas de vida.

Aurélia e Oscar: quase nonagenários, exemplo de humor, alegria, companheirismo, hospitalidade e amor.


Esta primeira parte do relato foi concluída na Choperia do Tito. Está dedicada à memória de David Bowie.

Nos próximos dias, o relato continua.




segunda-feira, 15 de junho de 2015

Goodbye, Johnnie

Meu tio João Edemir faleceu ontem.
Um exemplo de dignidade, humildade, abnegação, solidariedade, Joãozinho foi sempre um ser humano afetuoso, correto, coerente, discreto. 
Para mim, particularmente, foi um amigo, um tio de quem eu gostava demais, com quem eu pude conviver desde criança, com quem aprendi muito, e com quem dividi alguns momentos únicos, dos quais não me esquecerei jamais. 
Estou muito triste, profundamente consternado.
Mas quando penso na dignidade e na correção de caráter de meu querido tio, especialmente a maneira honrada com que ele viveu e com que ele encarou a doença que acabou por lhe abreviar a existência, e sobretudo no amor sincero que ele dedicou aos seus filhos, filha e netas e neto, à minha tia, aos seus irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, eu me sinto confortado. 
Joãozinho vai fazer uma falta tremenda. Tenho em meu coração um buraco que não será preenchido. Mas eu vou me lembrar dele com o carinho que eu tinha para um tio maravilhoso, amável, afetuoso, que para mim sempre foi o sinônimo do Bem.
Vai em paz, Johnny. 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Yoko Ono, de novo.

*Todas as imagens que ilustram esta postagem são de propriedade do MoMA e têm autorização de uso.

O mais importante museu de arte moderna do planeta acredita que a arte de Yoko Ono é fundamental para o século 20. Por isso, resolveu homenagear a artista com uma retrospectiva intitulada "Yoko Ono: One Woman Show 1960-1971", que estreia dia 17 de maio e fica em cartaz até 7 de setembro de 2015, no MoMA, e está instalada numa das prestigiosas galerias do sexto andar do prédio principal do Museu, em Nova York. 
Mas, para muita gente, Yoko ainda é sinônimo de controvérsias. A mais maledicente, especialmente porque há muito superada por todos os remanescentes envolvidos, é de que ela "foi responsável pelo fim da maior banda do mundo". Quantos dos que pensam assim, no entanto, seriam capazes de indicar o período em que Yoko e John foram casados? Ou então, citar dentre as canções de Yoko, only, quais as mais significativas? 
Na opinião do curador da exposição, Klaus Biesenbach, "Nos anos 60, Yoko Ono foi uma artista influente, historicamente relevante e antecipadora de tendências, trabalhando em Londres, Tóquio e Nova York. Suas realizações estão quase ofuscadas pela fama. Nós queremos descortiná-las". 
O que Biesenbach afirma, qualquer um que tenha a mente aberta suficientemente para fugir da idolatria aos Beatles ou conheça um mínimo da história da arte, já sabe há muito tempo. Muitos dos detratores de Yoko Ono assim agem por:
Yoko Ono durante a performance "Cut Piece", no Carnegie Hall, 1965. 
A) desconhecimento ou desconsideração proposital do trabalho de Ms. Ono DEPOIS da morte de John, e, fundamentalmente, ANTES dela ter se tornado Ms. Lennon.
B) desconhecimento ou desconsideração do trabalho que a "feiticeira" (yes, i'm a witch) fez DURANTE o período em que esteve casada com John - e que inclui obras colaborativas e outras totalmente independentes (ouçam o disco "A Story", gravado em 1974, mas somente lançado em 1997);
C) total desconhecimento ou desconsideração pelo que ela vem fazendo a partir dos anos 2000, quando retomou de maneira intensa sua carreira - que, diga-se, jamais havia sido interrompida totalmente, apenas tivera o ritmo reduzido pelo trauma pós-Lennon (ainda assim, ela lançou 3 discos-solo entre 1981-85).
Quando um fã de John ou dos Beatles rejeita Yoko, significa que, na verdade, sua compreensão sobre a obra de John Lennon apresenta considerável lacuna. Manter tal gap corresponde a recusar a obra de uma das artistas mais significativas do nosso tempo. Dizendo de outro modo: não há nada que justifique a desconsideração pelo trabalho artístico de Yoko Ono, a não ser a malemolência ou, pior, o puro preconceito.
Ono sobreviveu às piores tormentas, foi caluniada, difamada, teve sua obra acusada de incompreensível e foi caricaturizada por isso. No dia seguinte à morte do marido, cena torpe da qual foi testemunha ocular, isso tudo assumiu dimensão muito mais ampla e aterradoramente cruel do que havia sido. O bullying intenso a que ela fora submetida na década de 1970 tornou-se motivo de vergonha e arrependimento para quem o praticava. 
"Pintura para ver no escuro". 1961. Coleção MoMA. Foto de G. Maciunas. 
Hoje, sua obra é novamente revisitada, e o melhor, significativamente endossada pelo MoMA, sem os velhos clichês estúpidos, reconhecida por seu valor dentro do contexto do desenvolvimento da arte no
século 20. 
Não custa lembrar: a turma de Yoko Ono antes do seu envolvimento com o showbizz e a beatlemania tinha gente como Maciunas, Cage, G. Brecht, Knowles, Mac Low, Higgins, Beuys. Essa gente, por sua vez, era influenciada pelo grupo C.O.B.R.A e por Dadá, Marcel Duchamp & Allan Kaprow.
A artista japonesa radicada nos Estados Unidos é um raro exemplo de coerência entre vida e obra. Seu nome é sinônimo de força, compaixão, coragem, firmeza. Sua arte, sinônimo de complexidade estética, amor, leveza, pureza, delicadeza, experimentalismo e profundidade, que surgem, na maior parte, da esperança e do humor que ela sempre carregou consigo, mas não esquecem de pagar seu óbolo à dor, à revolta e ao sentimento de injustiça contra a censura. Afinal, não existe forma de censura mais cruel ou definitiva do que a pena de morte. Alguém que teve o marido assassinado diante dos seus olhos não poderia pensar de outra maneira.
Yoko Ono tem 82 anos de idade, e continua a viver em Nova York.


Yoko diante da série de fotografias da performance "Big Piece", que integram a exposição no MoMA, 2015.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

No Paraná, a Irmã do McSorley's


O McSorley's - um dos mais antigos bares de Nova Iorque
Tuffi Cury, o Tito - 73 anos à frente de sua choperia, inaugurada em 1933. (Foto - Lente Quente)


A Choperia do Tito é o bar mais antigo do Paraná. Na verdade, chamá-lo de “bar” é quase um despropósito, uma vez que para seus frequentadores, o Tito é semelhante a um templo, um tradicional local de encontro e peregrinação, síntese do estilo boêmio e do espírito de época que há muito vem sendo olvidado e substituído no Brasil pelos pastiches da última moda.


A Revista Piauí, em sua centésima edição (janeiro de 2015), publica a clássica narrativa do jornalista norte-americano Joseph Mitchell sobre o bar do McSorley, em Nova York. A leitura do texto levou-me a inevitáveis comparações com o estabelecimento paranaense. Considerando o evidente distanciamento temporal e cultural entre as histórias, os estabelecimentos e suas respectivas cidades, há muitas semelhanças entre o McSorley’s e o Tito. Pra começar, a longevidade: quando Mitchell publicou seu relato na The New Yorker, o McSorley’s acabara de completar 86 anos de funcionamento. O Tito, por sua vez, em 2015 comemora 83 anos, 59 deles no mesmo endereço – rua Coronel Dulcídio, centro de Ponta Grossa. 


O McSorley’s, fundado por um imigrante irlandês como Old House at Home, teve como proprietários membros de duas famílias – sua dona à época da reportagem era filha de um cliente que havia adquirido o bar do filho de seu fundador, com a promessa de mantê-lo imune a qualquer mudança. A distinta senhora herdeira do McSorley’s cumprira a promessa e manteria em vigor suas regras e características.


O Tito abriu suas portas em 1933 como A Deliciosa, dirigido por um imigrante alemão de nome Germano Betse, seu gerente até 1935, quando o vendeu para Theobaldo Justus. Em 1942, outro imigrante – desta vez, o comerciante libanês Oadi Cury – adquiriu o estabelecimento, com o objetivo de deixá-lo como legado ao filho, Tuffi Cury, apelidado de Tito, então um jovem de 17 anos que havia sido funcionário do bar, e acabaria por ser seu proprietário até a década de 2000. Em 2001, o estabelecimento passou para seus netos, os irmãos Hudson e Anderson Wiecheteck, atualmente à frente da choperia. Aos 89 anos, Tuffi atende no balcão de segunda à sexta, no horário de almoço dos netos.


O bar nova-iorquino era frequentado por um público masculino tradicional e fiel, e também por eventuais curiosos em busca de lugares únicos e peculiares, a quem era permitido beber e compartilhar do local, desde que respeitassem o espírito e a rotina do lugar. Mulheres não eram admitidas. 


A “fauna” que frequenta o Tito é também muito parecida com a do McSorley’s: boêmios de longa data, cada qual com seu próprio estilo e manias, que sentam-se nos mesmos lugares e contam as mesmas histórias. Alguns bebem em copos exclusivos, e vão lá para conversar, contar piadas, falar mal do governo – não importa qual seja – e beber. Artistas, intelectuais e até políticos aparecem esporadicamente. O mais velho frequentador do Tito é o “seu” Silvestre – no bar desde 1942. Hoje, aos 89 anos – a mesma idade de seu amigo Tuffi –, com algumas restrições de saúde, continua a marcar presença aos sábados para beber sua garrafa de cerveja. 


Apesar de nunca ter sido misógina, a choperia sempre teve um espírito masculino – no começo, seus frequentadores eram operários da ferrovia e das outras fábricas, serrarias, oficinas e olarias da região, que lá iam para beber dignamente seu chope após a labuta diária. Já nesse tempo, mulheres eram toleradas, mas era bastante incomum encontrar uma dama bebendo no local. Na década de 1980, a figura feminina passou a ser vista com mais frequência, e hoje, ainda que a maioria dos frequentadores sejam homens, há várias mulheres que passaram a ter o Tito como seu bar – primeiro, acompanhadas dos amigos, namorados e maridos, e depois, tornadas elas mesmas frequentadoras cativas. Nenhum sutiã foi queimado, nem ofensa proferida: no Tito, as mulheres são sempre bem-vindas. O desrespeito a qualquer frequentador - seja homem ou mulher - é punido com a exclusão do direito de frequentar o local. 


O Tito preserva o balcão, o armário de bebidas, as mesas, cadeiras, a caixa registradora e a máquina de corte de frios desde os tempos da “Deliciosa”. Há também algumas garrafas de bebidas antigas, alguns barris de chope da fábrica de cerveja Adriática (também fundada por um alemão, comprada pela Companhia Antarctica Paulista na década de 1930, cujo maior legado é a cerveja “Original”, criada em 1931, e hoje tornada rótulo da Ambev), e quadros com fotos e textos louvando as qualidades do local. Mas seu grande tesouro é a antiga chopeira, que sem uso da eletricidade, transporta o precioso e desejado líquido por duas serpentinas de cobre, com 30 metros cada uma, e que jorra em suas torneiras para alegria do freguês - chope que fez sua fama por todas essas quase 9 décadas de funcionamento. Poucas coisas são comparáveis ao prazer de beber um chope tirado pelas mãos do Tito: a bebida sai lentamente, até formar uma colarinho de 5 cm, acrescentando ao prazer de sorver a bebida um prazer estético em apreciá-la no copo. É o que cria a empatia e garante a fidelidade de seus mais antigos clientes. Dificilmente, alguém entra no Tito e sai de lá insatisfeito.


Como resultado de um litígio entre o estabelecimento e o proprietário do imóvel, a choperia correu o risco de fechar suas portas em 2003. Após um acordo na Justiça, o Tito pode permanecer no local – mas teve que ceder seu reservado, que ficava aos fundos do imóvel e trazia ainda mais intimismo e clima ao local.


Mesmo tendo perdido o acesso ao reservado (que permanece vazio desde a pendenga judicial), a Choperia do Tito permanece como um dos mais autênticos bares do Brasil, uma ilha que manteve milagrosamente suas características e seu espírito intocados, mesmo com a avalanche que pôs fim a quase tudo o que era autêntico e hoje não passa de memória dos velhos boêmios que frequentaram locais parecidos pelo Brasil afora. Há 83 anos, funciona nos mesmos horários: das 9 às 20h durante a semana, e das 9 às 14h aos sábados. 


Curiosamente, Tuffi Cury, responsável por um dos mais saborosos chopes servidos no país, nunca bebeu. Apenas uma vez teria experimentado sua bebida, e chegado à conclusão de que era muito amarga para seu paladar. Isso, no entanto, não o impede de servir o chope do modo tradicional, em uma tulipa de cristal, na temperatura ideal – nem gelado demais, nem quente como a cerveja do McSorley’s -, sempre com o colarinho que lhe preserva o sabor. Quando alguém aparece e pede “chope sem colarinho”, Tito costuma dizer “Ih, rapaz, você precisa aprender a beber. Chope sem colarinho você só encontra em outro lugar”. E serve o neófito como se deve, da maneira de sempre. Afinal, beber também é uma forma de aprender.