segunda-feira, 15 de junho de 2015

Goodbye, Johnnie

Meu tio João Edemir faleceu ontem.
Um exemplo de dignidade, humildade, abnegação, solidariedade, Joãozinho foi sempre um ser humano afetuoso, correto, coerente, discreto. 
Para mim, particularmente, foi um amigo, um tio de quem eu gostava demais, com quem eu pude conviver desde criança, com quem aprendi muito, e com quem dividi alguns momentos únicos, dos quais não me esquecerei jamais. 
Estou muito triste, profundamente consternado.
Mas quando penso na dignidade e na correção de caráter de meu querido tio, especialmente a maneira honrada com que ele viveu e com que ele encarou a doença que acabou por lhe abreviar a existência, e sobretudo no amor sincero que ele dedicou aos seus filhos, filha e netas e neto, à minha tia, aos seus irmãos e irmãs, sobrinhos e sobrinhas, eu me sinto confortado. 
Joãozinho vai fazer uma falta tremenda. Tenho em meu coração um buraco que não será preenchido. Mas eu vou me lembrar dele com o carinho que eu tinha para um tio maravilhoso, amável, afetuoso, que para mim sempre foi o sinônimo do Bem.
Vai em paz, Johnny. 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Yoko Ono, de novo.

*Todas as imagens que ilustram esta postagem são de propriedade do MoMA e têm autorização de uso.

O mais importante museu de arte moderna do planeta acredita que a arte de Yoko Ono é fundamental para o século 20. Por isso, resolveu homenagear a artista com uma retrospectiva intitulada "Yoko Ono: One Woman Show 1960-1971", que estreia dia 17 de maio e fica em cartaz até 7 de setembro de 2015, no MoMA, e está instalada numa das prestigiosas galerias do sexto andar do prédio principal do Museu, em Nova York. 
Mas, para muita gente, Yoko ainda é sinônimo de controvérsias. A mais maledicente, especialmente porque há muito superada por todos os remanescentes envolvidos, é de que ela "foi responsável pelo fim da maior banda do mundo". Quantos dos que pensam assim, no entanto, seriam capazes de indicar o período em que Yoko e John foram casados? Ou então, citar dentre as canções de Yoko, only, quais as mais significativas? 
Na opinião do curador da exposição, Klaus Biesenbach, "Nos anos 60, Yoko Ono foi uma artista influente, historicamente relevante e antecipadora de tendências, trabalhando em Londres, Tóquio e Nova York. Suas realizações estão quase ofuscadas pela fama. Nós queremos descortiná-las". 
O que Biesenbach afirma, qualquer um que tenha a mente aberta suficientemente para fugir da idolatria aos Beatles ou conheça um mínimo da história da arte, já sabe há muito tempo. Muitos dos detratores de Yoko Ono assim agem por:
Yoko Ono durante a performance "Cut Piece", no Carnegie Hall, 1965. 
A) desconhecimento ou desconsideração proposital do trabalho de Ms. Ono DEPOIS da morte de John, e, fundamentalmente, ANTES dela ter se tornado Ms. Lennon.
B) desconhecimento ou desconsideração do trabalho que a "feiticeira" (yes, i'm a witch) fez DURANTE o período em que esteve casada com John - e que inclui obras colaborativas e outras totalmente independentes (ouçam o disco "A Story", gravado em 1974, mas somente lançado em 1997);
C) total desconhecimento ou desconsideração pelo que ela vem fazendo a partir dos anos 2000, quando retomou de maneira intensa sua carreira - que, diga-se, jamais havia sido interrompida totalmente, apenas tivera o ritmo reduzido pelo trauma pós-Lennon (ainda assim, ela lançou 3 discos-solo entre 1981-85).
Quando um fã de John ou dos Beatles rejeita Yoko, significa que, na verdade, sua compreensão sobre a obra de John Lennon apresenta considerável lacuna. Manter tal gap corresponde a recusar a obra de uma das artistas mais significativas do nosso tempo. Dizendo de outro modo: não há nada que justifique a desconsideração pelo trabalho artístico de Yoko Ono, a não ser a malemolência ou, pior, o puro preconceito.
Ono sobreviveu às piores tormentas, foi caluniada, difamada, teve sua obra acusada de incompreensível e foi caricaturizada por isso. No dia seguinte à morte do marido, cena torpe da qual foi testemunha ocular, isso tudo assumiu dimensão muito mais ampla e aterradoramente cruel do que havia sido. O bullying intenso a que ela fora submetida na década de 1970 tornou-se motivo de vergonha e arrependimento para quem o praticava. 
"Pintura para ver no escuro". 1961. Coleção MoMA. Foto de G. Maciunas. 
Hoje, sua obra é novamente revisitada, e o melhor, significativamente endossada pelo MoMA, sem os velhos clichês estúpidos, reconhecida por seu valor dentro do contexto do desenvolvimento da arte no
século 20. 
Não custa lembrar: a turma de Yoko Ono antes do seu envolvimento com o showbizz e a beatlemania tinha gente como Maciunas, Cage, G. Brecht, Knowles, Mac Low, Higgins, Beuys. Essa gente, por sua vez, era influenciada pelo grupo C.O.B.R.A e por Dadá, Marcel Duchamp & Allan Kaprow.
A artista japonesa radicada nos Estados Unidos é um raro exemplo de coerência entre vida e obra. Seu nome é sinônimo de força, compaixão, coragem, firmeza. Sua arte, sinônimo de complexidade estética, amor, leveza, pureza, delicadeza, experimentalismo e profundidade, que surgem, na maior parte, da esperança e do humor que ela sempre carregou consigo, mas não esquecem de pagar seu óbolo à dor, à revolta e ao sentimento de injustiça contra a censura. Afinal, não existe forma de censura mais cruel ou definitiva do que a pena de morte. Alguém que teve o marido assassinado diante dos seus olhos não poderia pensar de outra maneira.
Yoko Ono tem 82 anos de idade, e continua a viver em Nova York.


Yoko diante da série de fotografias da performance "Big Piece", que integram a exposição no MoMA, 2015.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

No Paraná, a Irmã do McSorley's


O McSorley's - um dos mais antigos bares de Nova Iorque
Tuffi Cury, o Tito - 73 anos à frente de sua choperia, inaugurada em 1933. (Foto - Lente Quente)


A Choperia do Tito é o bar mais antigo do Paraná. Na verdade, chamá-lo de “bar” é quase um despropósito, uma vez que para seus frequentadores, o Tito é semelhante a um templo, um tradicional local de encontro e peregrinação, síntese do estilo boêmio e do espírito de época que há muito vem sendo olvidado e substituído no Brasil pelos pastiches da última moda.


A Revista Piauí, em sua centésima edição (janeiro de 2015), publica a clássica narrativa do jornalista norte-americano Joseph Mitchell sobre o bar do McSorley, em Nova York. A leitura do texto levou-me a inevitáveis comparações com o estabelecimento paranaense. Considerando o evidente distanciamento temporal e cultural entre as histórias, os estabelecimentos e suas respectivas cidades, há muitas semelhanças entre o McSorley’s e o Tito. Pra começar, a longevidade: quando Mitchell publicou seu relato na The New Yorker, o McSorley’s acabara de completar 86 anos de funcionamento. O Tito, por sua vez, em 2015 comemora 83 anos, 59 deles no mesmo endereço – rua Coronel Dulcídio, centro de Ponta Grossa. 


O McSorley’s, fundado por um imigrante irlandês como Old House at Home, teve como proprietários membros de duas famílias – sua dona à época da reportagem era filha de um cliente que havia adquirido o bar do filho de seu fundador, com a promessa de mantê-lo imune a qualquer mudança. A distinta senhora herdeira do McSorley’s cumprira a promessa e manteria em vigor suas regras e características.


O Tito abriu suas portas em 1933 como A Deliciosa, dirigido por um imigrante alemão de nome Germano Betse, seu gerente até 1935, quando o vendeu para Theobaldo Justus. Em 1942, outro imigrante – desta vez, o comerciante libanês Oadi Cury – adquiriu o estabelecimento, com o objetivo de deixá-lo como legado ao filho, Tuffi Cury, apelidado de Tito, então um jovem de 17 anos que havia sido funcionário do bar, e acabaria por ser seu proprietário até a década de 2000. Em 2001, o estabelecimento passou para seus netos, os irmãos Hudson e Anderson Wiecheteck, atualmente à frente da choperia. Aos 89 anos, Tuffi atende no balcão de segunda à sexta, no horário de almoço dos netos.


O bar nova-iorquino era frequentado por um público masculino tradicional e fiel, e também por eventuais curiosos em busca de lugares únicos e peculiares, a quem era permitido beber e compartilhar do local, desde que respeitassem o espírito e a rotina do lugar. Mulheres não eram admitidas. 


A “fauna” que frequenta o Tito é também muito parecida com a do McSorley’s: boêmios de longa data, cada qual com seu próprio estilo e manias, que sentam-se nos mesmos lugares e contam as mesmas histórias. Alguns bebem em copos exclusivos, e vão lá para conversar, contar piadas, falar mal do governo – não importa qual seja – e beber. Artistas, intelectuais e até políticos aparecem esporadicamente. O mais velho frequentador do Tito é o “seu” Silvestre – no bar desde 1942. Hoje, aos 89 anos – a mesma idade de seu amigo Tuffi –, com algumas restrições de saúde, continua a marcar presença aos sábados para beber sua garrafa de cerveja. 


Apesar de nunca ter sido misógina, a choperia sempre teve um espírito masculino – no começo, seus frequentadores eram operários da ferrovia e das outras fábricas, serrarias, oficinas e olarias da região, que lá iam para beber dignamente seu chope após a labuta diária. Já nesse tempo, mulheres eram toleradas, mas era bastante incomum encontrar uma dama bebendo no local. Na década de 1980, a figura feminina passou a ser vista com mais frequência, e hoje, ainda que a maioria dos frequentadores sejam homens, há várias mulheres que passaram a ter o Tito como seu bar – primeiro, acompanhadas dos amigos, namorados e maridos, e depois, tornadas elas mesmas frequentadoras cativas. Nenhum sutiã foi queimado, nem ofensa proferida: no Tito, as mulheres são sempre bem-vindas. O desrespeito a qualquer frequentador - seja homem ou mulher - é punido com a exclusão do direito de frequentar o local. 


O Tito preserva o balcão, o armário de bebidas, as mesas, cadeiras, a caixa registradora e a máquina de corte de frios desde os tempos da “Deliciosa”. Há também algumas garrafas de bebidas antigas, alguns barris de chope da fábrica de cerveja Adriática (também fundada por um alemão, comprada pela Companhia Antarctica Paulista na década de 1930, cujo maior legado é a cerveja “Original”, criada em 1931, e hoje tornada rótulo da Ambev), e quadros com fotos e textos louvando as qualidades do local. Mas seu grande tesouro é a antiga chopeira, que sem uso da eletricidade, transporta o precioso e desejado líquido por duas serpentinas de cobre, com 30 metros cada uma, e que jorra em suas torneiras para alegria do freguês - chope que fez sua fama por todas essas quase 9 décadas de funcionamento. Poucas coisas são comparáveis ao prazer de beber um chope tirado pelas mãos do Tito: a bebida sai lentamente, até formar uma colarinho de 5 cm, acrescentando ao prazer de sorver a bebida um prazer estético em apreciá-la no copo. É o que cria a empatia e garante a fidelidade de seus mais antigos clientes. Dificilmente, alguém entra no Tito e sai de lá insatisfeito.


Como resultado de um litígio entre o estabelecimento e o proprietário do imóvel, a choperia correu o risco de fechar suas portas em 2003. Após um acordo na Justiça, o Tito pode permanecer no local – mas teve que ceder seu reservado, que ficava aos fundos do imóvel e trazia ainda mais intimismo e clima ao local.


Mesmo tendo perdido o acesso ao reservado (que permanece vazio desde a pendenga judicial), a Choperia do Tito permanece como um dos mais autênticos bares do Brasil, uma ilha que manteve milagrosamente suas características e seu espírito intocados, mesmo com a avalanche que pôs fim a quase tudo o que era autêntico e hoje não passa de memória dos velhos boêmios que frequentaram locais parecidos pelo Brasil afora. Há 83 anos, funciona nos mesmos horários: das 9 às 20h durante a semana, e das 9 às 14h aos sábados. 


Curiosamente, Tuffi Cury, responsável por um dos mais saborosos chopes servidos no país, nunca bebeu. Apenas uma vez teria experimentado sua bebida, e chegado à conclusão de que era muito amarga para seu paladar. Isso, no entanto, não o impede de servir o chope do modo tradicional, em uma tulipa de cristal, na temperatura ideal – nem gelado demais, nem quente como a cerveja do McSorley’s -, sempre com o colarinho que lhe preserva o sabor. Quando alguém aparece e pede “chope sem colarinho”, Tito costuma dizer “Ih, rapaz, você precisa aprender a beber. Chope sem colarinho você só encontra em outro lugar”. E serve o neófito como se deve, da maneira de sempre. Afinal, beber também é uma forma de aprender.