sexta-feira, 28 de julho de 2017

Buda é meu Dean Moriarty

Início do trecho sem pavimentação na Estrada do Cerne


Minha amizade com Buda já tem mais de 20 anos. Nós nos conhecemos quando ainda éramos estudantes, eu de Letras, ele de Medicina Veterinária. Tínhamos amigos em comum, mas não éramos mais do que colegas naquela época. O envolvimento em um triângulo amoroso nos aproximou - ele foi namorado de uma ex-namorada minha, quando ela ainda era minha namorada (confusões juvenis, nem queiram saber...), e depois que o lance emocional se resolveu entre os três, e tudo acabou (quase) bem para todos, ficou claro que nos tornaríamos grandes amigos.


Desde então, Buda tem sido uma espécie de fiel escudeiro, e nós nos alternamos entre os papéis de Dom Quixote e Sancho Pança um para o outro. Na verdade, toda vez que nós pegamos a estrada juntos, eu o vejo como um Dean Moriarty moderno e tupiniquim, dirigindo de maneira que para a maioria das pessoas pareceria insana e irresponsável, mas é absolutamente segura: um carro velho, mas em boas condições mecânicas, tanque cheio, fazendo de tudo para economizar nos detalhes, e aproveitar ao máximo tudo o que a estrada pode oferecer. Buda foi dono de um fusca vermelho 1978 por mais de dez anos - um carro que chegou às suas mãos através da minha mediação, numa das situações jodorowskyanas que nos envolveram ao longo de nossas vidas - o antigo dono do carro, meu amigo, acabara de me falar que iria vendê-lo; dez minutos depois, eu encontro o Buda vindo de um trabalho de 6 meses prestando serviços técnicos e veterinários ao MST em Santa Catarina, com o dinheiro do acerto, me dizendo "Quero comprar um carro". Eu o levei ao proprietário do fusca, eles fecharam o negócio - não sem antes Buda pechinchar, para fazer jus às origens libanesas. Aquele carro protagonizou altas aventuras, com Buda, sua esposa e sua filhinha, e outras pessoas, ele sempre indo atrás de uma montanha ou parede para escalar, ou uma boa praia para nadar, ou um rio ou campina para acampar, fazendo dessas coisas um pretexto para pegar a estrada, e da estrada, um complemento essencial para os seus objetivos de vida. Ele nunca se envolveu em um acidente. Ele jamais foi parado em uma blitz. É lícito dizer que ele é um dos melhores, mais sérios, humanos, competentes e honestos veterinários que eu conheço. E continua assim, até hoje. Uma dessas aventuras vividas com o Vermêio foi narrada neste blog algum tempo atrás. Se quiser ler ou reler, clique aqui.  Há outra, também, envolvendo sexta-feira 13 e Zé do Caixão, a qual eu pretendo dar publicidade em seu tempo adequado. 

Desta vez, decidi acompanhá-lo de São Paulo a Ponta Grossa, na última semana. Seria uma excelente viagem de férias, e com certeza, uma nova aventura a ser vivida - nós sabíamos que parte do acordo da viagem deveria incluir, necessariamente, alguma aventura, em busca de um olhar ou situação inusitadas. Esse sempre foi o espírito de toda e qualquer viagem que eu tenha feito com Buda, e não poderia ser diferente nessa ocasião. Eram já 3 e meia da manhã quando saímos da Vila Mariana. Depois de cruzarmos a cidade em direção à avenida das Nações Unidas, pegamos a rodovia Régis Bittencourt BR-116 Sul - mas somente depois de nos perdermos na saída de SP e perder uns 50 minutos pelo caminho errado e voltando pelo caminho certo. À noite, na estrada tudo correu tranquilo: não havia tanto tráfego, e vínhamos em uma velocidade média de 100 km/h. 

Buda vendeu o fusca Vermêio há uns dois anos, e hoje ele viaja com um Volkswagen Gol CL branco 1998, que recebe o mesmo tratamento do velho fuquinha: jamais é lavado, tem um acúmulo de fuligem corrompendo a tinta automotiva, as janelas sebosas, e uma enorme teia de aranha ornando painel, do lado do passageiro. Também é cheio de penduricalhos, ferramentas de escalada, capacete, cordas, sapatilhas, um cachorrinho de pelúcia (apelidado de Bury), garrafas d´água, e sabe-se lá mais o quê. 
Uma enorme teia de aranha ornava o painel, do lado do passageiro

Lá pelas 5h, com o dia já nascendo e o frio tomando conta do interior do carro. Nos postos de pedágio, parávamos no Centro de Apoio aos Usuários para encher a garrafa de café e nos aquecer um pouco, enquanto conversávamos e seguíamos o caminho da estrada. Tivemos sorte no primeiro pedágio - o café havia acabado de ser passado, estava quentinho e era bom. Nas outras duas paradas, só café ruim. 

Mais ou menos às 10 da manhã, chegávamos a Curitiba. Decidimos atravessar a cidade, pela Rua Presidente Carlos Cavalcanti, até a avenida Manoel Ribas, que liga o bairro das Mercês à Santa Felicidade, e segue até a Estrada do Cerne - PR 090, uma das últimas estradas paranaenses ainda não 100% asfaltadas, e que obviamente, é um lugar belíssimo, de paisagem humana e natural muito bem preservadas, um local onde ainda se vê e se sente o Paraná polonês com todas as suas características, e que é a estrada que passa ao lado da Escarpa Devoniana, área de preservação natural que corre o risco de ser severamente diminuída, caso passe um projeto de lei capitaneado pelos lobbistas do agronegócio, que querem transformar o local numa grande plantação de soja e pinus illiotis. É bem possível que esses canalhas que querem destruir o mundo, ou torná-lo inabitável, consigam seus intentos.

A sequência mostra uma das várias paradinhas para tomar café.














A aventura estava realmente começando agora. Paramos para um café no final de Santa Felicidade, quase já em Campo Magro, e seguimos em frente, em direção à Campo Magro. No distrito de Bateias, avistamos uma casa de madeira em estilo polaco-paranaense, que abrigava um bar. Resolvemos parar, e conhecemos um dos bares mais antigos e tradicionais do Paraná, com 75 anos de funcionamento. Ali, comemos um salsicho, bebemos uma cerveja e seguimos viagem. 
O dia amanhece pela janela do carro
Curitiba

Doces na padaria em Santa Felicidade

Hit the road again!
A Estrada do Cerne é simplesmente linda. Como disse acima, mantém ainda conservada a cultura polaco-paranaense. Entre Curitiba e Ponta Grossa, pelo Cerne, são cerca de 140 km - pouco mais de 20 do que se fizéssemos o caminho pela BR-376 - a Rodovia do Café - que contém dois pedágios caríssimos, o que é um inconveniente bastante considerável. É uma vergonha que se pague quase R$ 20 por pouco mais de 100 km de estrada. A concessão das rodovias do Paraná à empresas privadas é uma máquina de fazer dinheiro, e é indignante pagar isso para se locomover. Por isso também o Cerne é uma opção alternativa que vale a pena. O trecho asfaltado tem mais ou menos 60 km, e o restante é a mesma estrada de chão que fazia a ligação de Curitiba com o interior do Estado (Ponta Grossa, Castro e o Norte Pioneiro) durante mais de cem anos. Com a inauguração da BR-376, nos anos 1970, o Cerne foi preterido pela maioria dos motoristas, e sua utilização ficou restrita aos moradores da Região. 
Pausa para um flash

O caminho é preenchido por uma paisagem humana e natural únicas, que juntas formam uma beleza peculiar. Estávamos com a sorte ao nosso lado: o tempo estava ótimo, um dia de sol e céu azul ciano, com a típica paisagem de inverno dos Campos Gerais do Paraná. Veem-se casas, agricultores, animais, vendedores de produtos da terra, árvores, cavalos, riachos, pontes e regatos, com a onipresente araucária por quase toda a estrada. 

Antigo bar no caminho das Tropas
Os frequentadores parecem também eles terem vindo de um tempo que já não mais existe



Comendo poeira

Uma velha casa, sede de uma das inúmeras pequenas propriedades da região

Regra budista #1: JAMAIS lave seu carro

No meio da mata, uma igrejinha



Ao passarmos por um vendedor de cebolas, pedi ao Buda que parássemos para comprar uma trança, e também porque eu não poderia perder a oportunidade de utilizar o coletivo réstia , que quase sempre utilizo como exemplo nas aulas de português, mas que raramente é efetivamente utilizado no dia a dia da maioria dos falantes. "Bom dia, senhor. Quanto é a réstia?" "A réstia é dez reais". Comprei uma e fotografei as belíssimas e suculentas cebolas. 

Belíssimas réstias de cebolas por R$10, direto do produtor
ESTA HISTÓRIA CONTINUA... 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Poesia concretada

Neste texto, não usarei o epíteto "Ponga Trossa" para me referir à Princesa dos Campos, como tem sido contumaz em algumas manifestações orais e escritas.

A relação com minha cidade natal, Ponta Grossa, Paraná, sempre foi marcada por múltiplas ambiguidades. Nascido e crescido aqui, desde a adolescência, fui tomado por uma espécie de obsessão: abandonar de vez a tediosa Princesinha dos Campos, a cidade conservadora, quatrocentona, retrógrada, careta, que agredia com seu retrocesso e burrice, e cujo maior símbolo foi para mim, durante o longo tempo em que aqui vivi, o sentimento constante de deslocamento e antipatia aos círculos sociais habituais, que marcou boa parte de minha trajetória. Saí, mas meu retorno é sempre marcado por sentimentos alternados, a nostalgia e a beleza junto da constatação da estupidez e rude recriação dos espaços urbanos.

No entanto, tal situação de sentir-se nômade bérbere dentro de seu próprio "lugar de origem", permitiu o treino de um olhar observador, desde tenra idade atento a detalhes que em geral passavam despercebidos, ou então eram deliberadamente desvalorizados e esquecidos pelos agentes oficiais - públicos e privados. Tal desvalorização contaminou sobremaneira o cidadão-médio e as camadas periféricas da cidade que acabou por se tornar padrão a auto-imagem negativa e destrutiva sobre o passado e a memória ao longo de várias décadas.

Por ter sido o descaso histórico objeto da análise, dos estudos e das pesquisas de intelectuais mais gabaritados do que eu no meio acadêmico, opto por escrever sobre a city de uma maneira mais poética, sentimental,  menos analítica ou marcada pela tentativa de compreender à luz da sociologia os meandros de sua transformação urbana. Optei apenas por observar, com o olhar de ex-habitante, que ainda se permite participar de algumas cenas.

Tive talvez minha maior lição de fotografia em meados de 2001, quando por acaso encontrei o fotógrafo Raul Bianchi tomando sua cerveja no balcão do antigo Fundo de Quintal na rua XV. Naquela ocasião, ele me disse: "Treine seu olhar. O bom fotógrafo é sobretudo um observador de detalhes e instantes exatos, que são irrepetíveis combinações de luz e ação. Quem observa, ainda que tenha uma câmera Xereta, conseguirá produzir boas fotos. Quem não observa, mesmo com o melhor equipamento, as melhores lentes e os melhores recursos, jamais conseguirá uma boa fotografia".

Dentro do espírito desta filosofia, as imagens que ilustram este post foram feitas com a câmera de um celular Motorola já meio capenga. Reconheço que a captação não foi das melhores - bem como a técnica do fotógrafo. Mas procurei colocar o sentimento do dia de hoje no olhar dessas fotos.

Coisas inusitadas e peculiares preencheram o dia. A começar, o encontro incomum com um beija-flor que, talvez assustado ou afetado pelo calor, sentou-se num poste e quase se deixou acariciar - quando toquei suas costas, ele saiu voando e sentou-se no fio de luz. Ao longo do dia, encontrei duas carcaças outras de beija-flores, o que me fez pensar se algum tipo de situação poderia estar causando a morte desses pássaros.
Um beija-flor vivo

A PG que busco todas as vezes que tenho a oportunidade de vir pra cá com tempo livre é a mesma que encantava meu olhar de menino-adolescente, quando eu vadiava perambulando a esmo - "parmiando" Ponta Grossa desde priscas eras.

Percebi muito cedo que a destruição do centro histórico, iniciada na década de 1970 e ainda não concluída totalmente, jogava fora não apenas o mais importante e representativo conjunto arquitetônico do Estado. Também censurava de maneira insensata e injustificada as visões da cidade às novas gerações - visões que vem sendo distorcidas, destruídas ou apagadas a partir de sucessivas decisões equivocadas dos detentores das "leis". A cidade pôs abaixo sem cerimônia, sem pudor, e por vezes de forma cínica, todas as referências históricas importantes de seu passado - a começar pela antiga Catedral de Santana, construída em 1900 e demolida em 1978 (com as bênçãos do bispo, o alvará de demolição assinado pelo prefeito e os aplausos da sociedade, que berrava pelo "progresso").  Hoje, vivemos da nostalgia e das "fotografias na parede", como diz a famosa poesia de Drummond.

Antiga catedral de Santana, demolida em 1978. (Acervo Foto Elite - Ponta Grossa)

Entretanto, ainda assim é flagrante como ainda resistem pela cidade determinadas peculiaridades, determinadas paisagens que são o contraste entre o mundo bucólico já talvez sem lugar neste tempo, e a urbe que insiste em estender suas garras e ruas e parques e conjuntos habitacionais e redes de água e esgoto e linhas de transporte público, sempre insuficientes e ineficazes para os habitantes de todos os fundos de vale e espaços inexplorados da cidade, que se tornaram condomínios no melhor estilo "pombal".

A beleza bucólica da Princesa dos Campos

Desde que cheguei, fiz alguns passeios a pé por alguns bairros e pelo centro. O que pude constatar foi que o processo de metamorfose auto-destrutiva, baseado somente na especulação imobiliária e no produto de seus dividendos, assume uma nova fase nesta segunda década do século 21 - a verticalização absurda dos espaços urbanos. É impressionante o "boom" das novas construções, marcadamente de prédios com 15, 20 andares, que começaram a se proliferar desde uns 5 anos para cá, por quase toda cidade.

O que restou da antiga Ponta Grossa e suas particularidades urbanas vai aos poucos dando lugar para construções enormes, em bairros que jamais deveriam receber prédios gigantes, mas que que acabam tendo substituídos seus espaços abertos e longas vistas do horizonte, patrimônios de todos os princesinos, pela imposição de estranha, esdrúxula e distorcida visão de "crescimento urbano" e "progresso" sem planejamento, sem pensar nas pessoas, e que vai aos poucos inviabilizando qualquer ação urbana mais eficaz para a cidade de pouco mais de 350 mil habitantes.

 Cena comum: a patrola marca o início da construção de um novo prédio sobre os escombros das casas antigas

Em todos o bairros por onde andei - Nova Rússia, Uvaranas, Oficinas, Olarias, Jardim Carvalho, Órfãs), encontrei obras, tapumes, terrenos baldios, terraplanagens, demolições, entulhos, prédios gigantes em construção, placas indicativas de novos empreendimentos e quiosques para vendas de apartamentos. O processo de demolição sistemática da cidade se manifesta uma vez mais, 40 anos depois do estúpido bota-abaixo da Catedral, do palácio episcopal, dos casarões, dos barracões e da rotunda da Rede, das instalações da indústria Adriática e das indústrias Wagner, e recentemente o prédio do Cine Império...


 Onde outrora havia um casarão, logo haverá um predião.

Tapume mostra apenas a ponta do iceberg

Ao longe, a antiga igrejinha de Uvaranas, vai sendo substituída como ponto de referência pelo prédio gigante que brota do chão


A cidade ainda resiste, de qualquer forma. Ainda há poesia pelas esquinas, pelas colinas, pelos cantos e pelos campos da Princesa. Ainda se vê o horizonte - mesmo que a visão única do nascer e do por do sol no alto do centro velho já não seja mais possível como era, em alguns pontos.

Até quando resistirá?

Prédios

Prédios que brotam do chão

Prédios que aparecem do nada 
Prédios que se impõem e se tornam donos da paisagem, da vista, do sol, do céu, do espaço, da cidade inteira



Em breve, hospede-se em um glamuroso prédio de vidro, com todo conforto

Em Aleppo é parecido. Mas lá tem uma guerra. 

Espigas tornam aos poucos PG num paliteiro

Será por isso que os beija-flores estão morrendo?

Muros que cercam a visão

Este céu tem seus dias contados

A facilidade em financiar seu apartamento

Qual o sentido em sequestrar a vista de quem não vai morar no alto da torre?

Ao fundo, o pavão misterioso católico: o bizarro disco-voador de ferro e vidro que substituiu a antiga catedral

18 andares.

Igreja dos Polacos

Em meio a tanta destruição do antigo, resistem as antigas casas de madeira

Mas o canteiro de obras parece espreitar os olhos da velha PG para roê-los