Morreu Itamar Franco, ex-presidente da República, ex-governador e Senador.
A repercussão sobre o seu passamento foi floreada de exéquias, honrarias, elogios. A mídia oficial fez seu papel uma vez mais, incensando a aura do morto como um "estadista", um "político honesto", um "homem de visão", que esteve sempre ao lado do povo, e que, mesmo quando longe de sua querida Minas Gerais, jamais deixava de glorificar suas raízes.
Tudo muito bom, muito bonito. Comovente observar as manifestações de políticos, como o atual governador mineiro, Antonio Anastasia (que me dá azia) "emocionado", chorando ao ler um discurso em homenagem ao ex-presidente. Também foi lindo ver o senador Aécio Neves, o narigudo beberrão, eleito na dobradinha com Itamar Franco ao Senado da República, falar da "longa parceria", e de que a perda de Itamar era como "perder um pai".
E o que dizer da presidenta Dilma, que decretou luto oficial por uma semana, e falou em "exemplo de honradez"? E do ex-presidente Lula, para quem sem Itamar "a democracia não teria se consolidado"? E do senador Fernando Collor, que chamou o falecido de "companheiro digno, ético e coerente"? E FHC, que o fez "incorruptível", um homem "a quem deve muito"?
Poderíamos seguir com vários exemplos dos mais altos elogios, de nobres dignatários de nosso poder, ao falecido político mineiro.
A mídia, sempre a serviço de factóides, e sem nenhum lapso de auto-crítica, repercute a ideia de que o Brasil ficou órfão de um grande estadista.
Muito interessante. Entretanto, a morte do político me fez lembrar de algumas coisas que, enquanto estava vivo o homem, não condiziam muito bem com a imagem angelical que se tenta passar após sua morte.
Pra começar, lembro que na época em que foi galgado ao epicentro do poder, como vice-presidente de Fernando Collor, afastado no mês de junho de 1992, e que terminaria por renunciar ao mandato para evitar o impeachment (que assim mesmo sofreria), Itamar era visto como um personagem quase folclórico. Sua postura como vice-presidente em um momento de crise, repetindo uma vez mais as inúmeras vezes em nossa história em que a democracia esteve por um fio por conta da vacância do cargo-mor de nossa República, colocou o político mineiro, conhecido por sua parcimônia, nas cordas.
Ele pedia à imprensa que não o tratasse como "presidente", mas como "vice-presidente no exercício da presidência", e assim foi até que Collor deixou o Planalto pela porta dos fundos.
Lembro bem a sensação que se tinha à época: éramos país sem governo, com um presidente constrangido, surpreso e sem ação.
Por isso mesmo, Itamar foi retratado como um homem de atitudes lentas, de dúvidas, que não se sentia confortável diante das responsabilidades que o momento histórico lhe impunha.
Um exemplo disso é a charge do cartunista Paixão, publicada em 1993 pelo jornal Gazeta do Povo, de Curitiba. O presidente retratado como um caracol, e seu famoso topete fazendo as vezes da casinha do bicho que rastejava entre indecisões e falta de atitude de um governo morno:
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Na charge de Paixão, Itamar é comparado a um caracol. |
Ao morrer, Itamar foi chamado de "um homem de visão futurista" por vários articulistas. Uma imagem e tanto para um político que pediu à maior montadora de automóveis do país que voltasse a fabricar seu modelo mais antigo, fora de linha há quase dez anos e símbolo do atraso de uma indústria que havia sido acusada por seu antecessor de fabricar "carroças". Segundo as crônicas da República do Pão de Queijo, o pedido na verdade era uma promessa do presidente a sua namorada, que era apaixonada pelo modelo.
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Itamar Franco, um homem futurista, cavalga o modelo mais anacrônico da Volkswagen |
Itamar, o político exemplar e honrado, exaltado como "namorador" pela imprensa após a sua morte, foi protagonista de uma das mais constrangedoras gafes já cometidas por um chefe de estado. No carnaval de 1993, em pleno Sambódromo, o "namorador" Itamar foi fotografado ao lado da atriz pornô Lílian Ramos, em uma imagem que correu o mundo e envergonhou a Presidência da República - sem falsos moralismos, afinal, o Brasil é um país do sexo. Mas convenhamos, não fica bem para o cargo que ocupava o Presidente da República ser fotografado bêbado, acompanhado de seu ministro da Justiça, Maurício José Corrêa, também alcoolizado, numa farra ao lado de uma piriguete com a genitália exposta.
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Itamar e a perereca que abalou a República. Neste momento, o ministro da Justiça dormia em algum canto do camarote. |
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A posse, depois de seis meses em que o "vice no exercício da Presidência" deixou o país sem governo. À sua esquerda, o então ministro da Justiça, Maurício Corrêa, companheiro de Itamar no Sambódromo. Ao fundo, FHC, ainda inexpressivo ministro da Fazenda. |
Para finalizar, a ideia de um estadista que era fiel parece contraproducente quando observamos a carreira de Itamar Franco. Eleito Senador pela primeira vez em 1974, na onda dos votos de protesto que colocaram em xeque a Ditadura Militar na primeira eleição desde o Golpe, Itamar foi na maior parte de sua vida filiado ao PMDB. Mas, em 1986, contrariado por não conseguir a indicação de sua candidatura ao governo de Minas, deixou o partido e filiou-se ao PL.
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Campanha de Itamar Franco ao Senado, em 1974. O prefeito inexpressivo foi eleito na onda oposicionista que pôs em xeque o Regime Militar. |
Em 1989, filiou-se à legenda de Fernando Collor, o extinto PRN, para se candidatar à vice-presidência da República. Catapultado pela crise do impeachment à presidência da República, voltou ao PMDB antes de terminar seu governo, quando elegeu Fernando Henrique Cardoso na onda Real. Afastou-se de FHC, a quem chamou de "traidor", por se considerar passado para trás durante o golpe da reeleição (Itamar pretendia se candidatar à presidência novamente em 1998), e apoiou Lula, tanto em 1998 quanto em 2002. Com a eleição do ex-metalúrgico, foi presenteado com a Embaixada em Portugal. Mas como desejava um ministério, viu-se outra vez desprestigiado pelo Planalto e voltou à oposição.
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Itamar e Collor tomam posse em 1990. |
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Os dois ex-presidentes se reencontram no Senado, em 2011. |
Finalmente, em 2010, aos 80 anos de idade e sem anunciar a doença que acabaria por levá-lo à morte, foi eleito Senador oposicionista pelo PPS, numa dobradinha com Aécio Neves, em chapa que tinha na primeira suplência ninguém menos que o cartola Zezé Perrella, dirigente do Cruzeiro Esporte Clube, que agora se vê galgado ao Senado e ganha imunidade parlamentar num momento em que é acusado de inúmeras falcatruas, tráfico de influências e corrupção.
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FHC toma posse com apoio de Itamar, que poucos anos depois o acusaria de traição. |
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Itamar apoia Lula em 2002. Queria um ministério, recebeu a Embaixada em Portugal. Passou logo à oposição. |
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Itamar apoia Serra em 2010. A morte do político não permitiu saber quais seriam seus próximos passos. |
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Morto, Itamar Franco passa à galeria dos heróis nacionais, ainda que em vida sua trajetória tenha sido irregular e controversa. |
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Zezé Perrella: rindo à toa pela imunidade parlamentar adquirida sem nenhum voto, e que o livra de condenações e processos. A última obra de Itamar.
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Esse foi Itamar Augusto Cautieiro Franco, um mineiro nascido em Salvador, um camaleão que deixa a vida para entrar na história mórbida de um país que costuma transformar seus mortos em heróis, ainda que para isso seja preciso reescrever e reinterpretar os fatos.