sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sexta-Feira

Ah, sexta-feira!
Deixa cair nos teus braços
meu cansaço, meu tremor de mãos,
meu desembaraço.
Sexta-feira da semana inteira,
livrai-me do temor de não te encontrar mais que um dia, derradeira.
Que hoje tu sejas apenas a primeira!
Virás ainda a ser segunda, a ser vigésima,
a ser tricentésima trigésima terceira.
Ah, a sexta-feira!
Esperei-te com ansiedade a semana inteira.
E mal chegas e já vais embora!
Tal qual dama faceira,
Quer eu queira, quer eu não queira,
vais sempre embora e me deixas louco,
sem eira nem beira.
Ah, sexta-feira,
provinciana, palaciana, dama-da-noite, crente, rotineira -
Não será desta vez que te chamarei derradeira.
Sexta-feira
Sexta-terça
Quarta-quinta
Seja feita tua vontade, aqui na terra
ou numa feira.
Sexta, sexta-feira.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco Villas Boas (1957-2010)


Hoje tinha tudo pra ser um dia normal.

Pra falar a verdade, tinha tudo pra ser um dia bom: depois de três meses de lama e procrastinação, eu finalmente mandei minha bicicleta pro conserto, é sexta-feira, meu trabalho tá legal, o jornal dos alunos do Cefet tá iniciando de uma maneira bem bacana, eu consegui adotantes para todos os filhotes da minha gata, minhas contas estão pagas, eu comprei broto de feijão, brócolis, cenoura, pimentão amarelo, couve-flor, shoyu, e ia fazer um yaksoba para o almoço.

Andava meio indeciso se comprava ou não minha passagem pra passar a Páscoa com a família.

Sim, tinha tudo pra ser um dia tranquilo. Um dia bom. Acordei cedo, fiz café, dei uma saidinha até a padaria pra comprar pão e vi que o céu estava bem azul, está fazendo aquele calor forte de BH, mas eu estava feliz, até meio preguiçoso.

Não sei porque, abri a internet.

Aí, vejo, ainda meio sonolento, a notícia do assassinato do Glauco, o pai do Geraldão, da dona Marta, do Faquinha, do Geraldinho, do Zé do Apocalipse.

Eu não acreditei. O Glauco assassinado?? Como assim?

Na verdade, depois de absorver o baque, compreendi que realmente ele, aos 53, e seu filho Raoni, aos 25 anos, tinham sido mortos em sua casa.

Pouco importa o motivo desse crime, o que mais me deixa chocado é o fato de se matar, assim, sem mais nem menos, banalmente, um pai e um filho, diante da esposa e irmã.

No começo, suspeitavam de um assalto. Depois, estão dizendo que o assassino se trata de um anormal, conhecido da família, que teria invadido a casa e matado os dois sem um motivo aparente.

Pouco importa o motivo.
Pra mim, o que pega é justamente o fato de que mataram um dos nossos grandes cartunistas, um dos mais importantes artistas brasileiros das últimas décadas, um cara com uma percepção da realidade aguda e que fazia do humor uma maneira de dar um tapa na cara de tudo o que nos incomoda neste país: a corrupção, os políticos, os fanáticos religiosos, a violência, nossas neuras, nossa falta de grana, os menores abandonados.
Humor e humanidade, talvez sejam as palavras que melhor definam o Glauco.

Eu amava o Geraldão, desde quando eu tinha 8 anos. O Geraldão foi um dos responsáveis (junto com os personagens do Angeli e do Laerte) por me tornar um leitor. Meu pai comprava semanalmente a Folha de São Paulo, nos anos 1980, e eu lia de cabo a rabo o caderno Ilustrada, e me lembro bem, fazia coleção das tirinhas dos três cartunistas.

Depois, veio a Chiclete com Banana, com aquele humor escrachado e referências aos beats, aos textos e escritores malditos da literatura universal, e também a drogas, sexo, orgias, de maneira até então inédita na imprensa brasileira.

A morte violenta desse cara me deixou choado.
Fiquei triste. Chorei. Meu dia, que tinha tudo pra ser normal, foi um dia de merda, minhas aulas foram ruins, o calor de 37 graus me incomodou, e minha bicicleta tá arrumada, mas eu não tou com a menor vontade de pedalar.

Não sei o que pensar, me sinto de mãos atadas e também violentado pela falta total de sentido na morte de um dos nossos ícones culturais.

Um vazio enorme e sem sentido toma conta de meu pensamento.

Espero que esse país de merda melhore algum dia.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Eu vô li levá ali

Este filme foi dirigido pelo grande Mário Seu H, de Cachoeira. Ele também é o personagem principal. A cena acontece na feira, um local onde tudo se mistura, e com certeza, é um exemplo da grandiosidade e generosidade do povo baiano.
É a primeira vez que eu posto esse vídeo, espero que de alguma maneira, Mário Seu H ou alguém que o conheça, possam ver este filme como uma homenagem à sua sagacidade e também ao Recôncavo Baiano.


Eu vô li levá ali
Imagens: André Rosa
Direção: Mário Seu H
Cachoeira, Bahia.
Janeiro de 2009.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nanuque


Nanuque fica no extremo nordeste mineiro, quase já na Bahia. A cidade é cortada pelas águas barrentas do Rio Mucuri, que vai desaguar na cidade do mesmo nome, no sul da Bahia. Trata-se de um daqueles lugares que não figuram no imaginário coletivo dos habitantes do centro-sul do Brasil - mas que, ao contrário do que possam pensar os "civilizados"(esse termo normalmente combina com "alienados"), Nanuque existe, tem coisas interessantes, uma dinâmica própria, e um jeito simples de viver.
É claro que trata-se de um lugar onde a concentração de renda é a lei - ali, as usinas de cana-de-açúcar são a base da economia, também agora representadas pela plantação de eucaliptos para a indústria de papel. Em outras palavras, significa que há cada vez menos mata e pastagem nativa e cada vez mais monocultura e latifúndio.Eu não me aprofundei nos conflitos sociais que podem exisitir por ali, mas é óbvio que os contrastes e contradições falam por si mesmos. O lugar antigamente era habitado por povos indígenas, e deles, só restou o nome - a cidadezinha de Serra dos Aimorés, a última cidade mineira antes da Bahia, a própria nomenclatura Nanuque, Mucuri, são alguns exemplos do que sobrou desses povos.
Depois, o homem branco chegou, e dominou tudo. O século 20 trouxe a exploração mecanizada, e é evidente que a mobilidade social ali é algo muito lento, quase estático. Também, não há universidade (a UFVJM teve o câmpus inaugurado em Teófilo Otoni há menos de um mês, e de resto, temos outras só em Porto Seguro, distante uns 400 km do lugar).
De uma certa forma, a população de Nanuque vai levando sua vida do jeito antigo, lento, com o isolamento rompido apenas recentemente, pela Internet e pelas antenas de TV e suas telenovelas, que interferem e muito na vida da cidade e nas aspirações de seus habitantes.
Dá pra sentir que os jovens de lá querem uma vida melhor, mas essa vida melhor, o sonho talvez de ir para a cidade grande - seja Vitória, Belo Horizonte ou Salvador, e mesmo ainda o "sul maravilha" que já não ilude tanto, mas ainda tem seus adeptos - será compatível com as suas reais necessidades?
Bom, não vai ser aqui que vamos questionar as estruturas fundiárias, agrárias, sociais que fizeram a sociedade brasileira, sempre baseadas na lei do mais forte.
Apenas as imagens, nunca isentas de uma interpretação e de escolhas do observador, podem, talvez, falar por si mesmas.


O rio Mucuri tendo ao fundo a pedra Bueno


Produtos típicos


Verde que te quero azul


Indiferente às preocupações, o menino nada nas águas barrentas do Mucuri


Breno, um garoto feliz


Cães vadios, lentos como o tempo do lugar


Paraguai em Nanuque


Muito cuidado com o tipo de refresco que você vai pedir


Amizade no mais alto grau


"E vão fazendo telhados"


O sorriso de seu Adriano Zacarias é a expressão de um homem tranquilo



O Fritz (que não é assadiz nem cozidis)


Vista geral, ao fundo a Serra dos Aimorés


Na descida do morro do Bueno, ao fundo os eucaliptos



Fachadas coloridas e roupas secando num dia de muito sol



Contrastes nanuquenses - ao lado da simplicidade, a quase barroca sofisticação

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Teófilo Otoni


Teófilo Otoni é conhecida por ser a cidade das pedras preciosas.
Localizada no Nordeste de Minas Gerais, está a pouco mais de 150 km da Bahia. Uma cidade quente, entre montanhas, absolutamente simpática, agradável.
Nesta cidade (que, pouco mais de um mês depois que lá estivemos, recebeu a visita do presidente da República, a inaugurar um câmpus da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - sob protestos estudantis, que clamavam contra a estrutura precária do câmpus), pudemos sentir pela primeira vez o clima anunciando a Bahia.
Passeamos pelas vielas, sobe-desce ladeira, da cidade entre as montanhas, e conseguimos captar algumas imagens ilustrativas do local.
Eu sempre quis conhecer Teófilo Otoni (não me perguntem por quê, só sei que quando era criança, nas aulas de Geografia, sempre que aparecia o nome da cidade, eu pensava "um dia, vou conhecer esse lugar"). Não me arrependi e recomendo.
Ali, tomamos o refrigerante mais doce que já conheci - Mate Cola, uma mistura gasosa de erva-mate, chapéu de couro, cola e aroma de framboesa. Sui generis.
Mais um pedacinho do Brasil varonil desbravado heroicamente pelos mugwumps.
A catedral Lazuli e o índigo céu
Roa Bastos escreveu um conto chamado "El señor Obispo"
Se por acaso morreres ao dormir, estamos aqui pra isso mesmo...
El Mugwump Barba Blanca, com boné do Vietnam, bebendo uma pra espantar o calor
Y su bela Giu... (como ela me aguenta???)
Fábio, um camarada, que nos serviu uma deliciosa cachaça de Araçuaí, "Dama de Ouros"
Eu daria tudo pra ser esse cara
A catedral, de outro ângulo
Um crime contra o Brasil: acabaram com os trens
Como seria bom se essa promessa se tornasse realidade...
O entardecer na bela cidade
Pode deixar, eu não vou subir aí com meu carro.
Casinha pequenina
Sempre cães na janela

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Bloco dos Infantis















O Carnaval chegou e está indo embora, e depois de amanhã, o Brasil recomeça (ou começa) a sua vida e sua rotina.
O melhor deste Carnaval foi sem dúvidas estar junto de minha turma, Giu, Márcio e Luan Gabriel, e participar da folia em duas cidades históricas de Minas Gerais, primeiro em Sabará, depois em Ouro Preto.Criamos até um mini-bloco, o Bloco dos Infantis, cujo nome foi de certa forma uma homenagem ao Arnaldo Dias Baptista e o que dele disse o Sean Lennon, no filme "Loki" (em cartaz na Mostra Passou Batido, no Palácio das Artes, em BH): "Arnaldo é uma criança". Enquanto para algumas pessoas o adjetivo "infantil" pode ter uma conotação negativa, nós percebemos (antes do filme, até) que, de certo modo, ser "infantil" significa muitas coisas boas: acreditar antes de duvidar, sorrir, levar uma vida alegre e brincante, não só por causa do carnaval, mas em geral, e sempre.Cada um no seu quadrado, mas acho que ser "infantil", ou ser chamado de "poeta", "sonhador", para mim, realmente, não ofende, muito pelo contrário: é uma constatação.

Felicidade é jamais deixar a criança de dentro da gente morrer.


Eu não troco a alegria sincera de um Carnaval saudável por nada, seja o que for.

E pra quem duvidar, as fotos abaixo falam por si mesmas.

Abraços infantis, um pirulito e uma bitoca no nariz!

(Antes que eu me esqueça, o grande presente de Momo, para além da festa, foi o fato de que o Arruda, ex-governador e corrupto mor do Distrito Federal, está neste exato momento curtindo um catre numa prisão em Brasília. Isso animou bastante a folia, podem acreditar).





















domingo, 27 de dezembro de 2009

40 posts, a terra do Zacarias & meu avô

Esse é o quadragésimo post dos Caldos de Cana.

Quarenta escritos! E não é que eu consegui? Talvez nem seja muito...

Hoje é 31 de dezembro de 2009, faz 30 anos que meu avô paterno, o velho Theodoro Silva, morreu. Então, de certa forma, esse post será escrito como uma homenagem a um ser humano que congregou em torno de si toda uma família, que nunca mais foi a mesma depois de sua morte.
Eu tenho que admitir que estou contente por chegar ao número 40. Aquela velha máxima do Mário de Andrade sobre o fato de todo escritor acreditar na valia do que escreve, e que, por consequência, se vier a mostrar ou esconder, será por vaidade.

Em comemoração aos 40 textos dos Caldos de Cana, um especial sobre uma viagem excelente que fiz em companhia de meus amigos Milton, Tassiani e seu filho Theo, até Sete Lagoas.
Eu me convidei a ir com eles, e fui dirigindo o fusca 78 de Tass até a cidade que fica aproximadamente a 70 km de Belo Horizonte.
Milton Fernandes & Tassiani Cançado, meus protetores


Lá chegando, passamos o dia 25 de dezembro junto à família de Milton, num sítio rodeado de pequizeiros, flamboyants, acerolas, jenipapos, buritis, com direito a cães, galinhas, lagoa, tias, avós e bisavós.

Pequis


Uma delícia. A família tradicional mineira, reunida e festeira como sempre
Acerolas


Violão, cerveja, piadas e um clima de confraternização maravilhoso.

Violões que choram

E agora, a lembrança de meu velho avô e de tudo o que eu sou, e também as lembranças maternais, cujos avós me deixaram também muito cedo, servem talvez como uma forma de dizer que a vida é um mistério, um mistério feito de traços que nos unem a todos.

Em Sete Lagoas, no ano 2009, ou em Ponta Grossa, no dia 31 de dezembro de 1979.

Neste momento, um vinho Mioranza na cabeça, e amanhã eu e a Giu rumo ao norte de Minas e ao litoral sul da Bahia

Amém.

Milton e tia Geralda, embaixo de um flamboyant

Buritis